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Dispensa por algoritmo

Empregados humanos x inteligência artificial de novo em debate

Em agosto, a Xsolla, empresa de serviços de pagamento focada na indústria de jogos, decidiu dispensar 150 de seus 450 empregados baseada na recomendação de um algoritmo que analisa a eficiência individual no trabalho

Publicado em 19 de Outubro de 2021 às 02:00

Públicado em 

19 out 2021 às 02:00
Cássio Moro

Colunista

Cássio Moro

Inteligência artificial e tecnologia
A visão de ter empregos humanos substituídos por uma máquina não é nova Crédito: Pixabay
Notícia recente retoma o debate sobre a substituição de empregados humanos por inteligência artificial: em agosto, a Xsolla, uma empresa de serviços de pagamento focada na indústria de jogos, decidiu dispensar 150 de seus 450 empregados baseada na recomendação de um algoritmo que analisa a eficiência individual no trabalho ("El País", 10/10/2021).
A situação não é necessariamente nova, há dois anos já víamos casos de reclamações trabalhistas promovidas por funcionários contra a Amazon, nos EUA, por conta das cobranças por resultados e penalidades aplicadas por softwares. Segundo a "Época Negócios" (26/04/2019), o sistema informatizado inteligente “emite advertências, caso um funcionário passe muito tempo sem escanear um produto ou registrar outra atividade. E, no caso de reincidência ou não atingimento de metas, pode demiti-lo”.
Recentemente, o ex-entregador da Amazon Stephen Normandin, de 63 anos, relata que um dia, durante as entregas que realizava diariamente em Phoenix, recebeu um e-mail automático dizendo que ele não estava trabalhando adequadamente e, por isso, estava sendo dispensado. Relata o ex-empregado e ex-militar que, como um “old-school kind of guy”, dedicava-se 110% ao trabalho, razão pela qual sentiu-se ofendido por tratarem daquela forma sua reputação ("Bloomberg", 28/06/2020).
A visão de ter empregos humanos substituídos por uma máquina não é nova. Desde aquela a vapor se faz isso, seja para aumentar a produtividade e os lucros, reduzindo os custos trabalhistas, seja para evitar a exposição da pessoa a uma condição degradante e perigosa. As notícias acima, no entanto, evoluem o debate para a substituição dos cargos de chefia por robôs, função sempre considerada intelectual, incabível a um aparelho inanimado.
E sobre esse aspecto, assiste razão quem diz que a subordinação direta à máquina atenta contra a dignidade do trabalhador. Isso porque o algoritmo não passa de uma receita de bolo, um checklist automatizado sobre o cumprimento de N variáveis.
Em outras palavras, não passa de uma baita ferramenta gerencial para a verificação de desempenho, atingimento de metas, desídia e, até mesmo, considerando toda a big data envolvida, a identificação de problemas psicológicos e demais doenças acometidas pelo trabalhador, possibilitando não somente a punição, mas o encaminhamento para um tratamento precoce. O algoritmo pode ser uma importante ferramenta para a preservação do emprego, da saúde e da dignidade do trabalhador.
E como ferramenta gerencial, não pode servir de máscara para evitar que o próprio chefe, com hombridade, aplique diretamente a punição quando necessária. É mais fácil e covarde colocar a culpa no algoritmo para evitar uma conversa madura tête-à-tête com o subordinado. Em outra oportunidade já nos manifestamos sobre a falta do trato humanizado quando uma universidade dispensou diversos professores catedráticos por uma mensagem em pop-up.
Por outro lado, um algoritmo avaliativo surge como poderosa ferramenta para evitar decisões subjetivas. Todo mundo que já trabalhou em uma empresa sabe de histórias, se já não sofreu com uma, de chefes que privilegiam um colega sobre outros, porque é mais próximo, jogam tênis juntos ou torcem para o mesmo time.
Como uma análise objetiva e pautada numa infinidade de dados sobre produtividade individual é absolutamente impessoal, ao sugerir a dispensa de um empregado desidioso, pode ser que este seja o protegido, o filho do companheiro de golfe do patrão. Se bem aplicado, o algoritmo pode levar a sério a meritocracia dentro da empresa, mas desde que aplicada a todos, sem exceção, do operário de chão de fábrica ao CEO e, até mesmo, aos sócios.

Cássio Moro

É juiz do Trabalho, doutorando em economia, mestre em Processo, especialista em Direito do Trabalho e economista. Professor de graduação e pós-graduação da FDV. Neste espaço, busca fazer uma análise moderna, crítica e atual do mercado e do Direito do Trabalho

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