Cássia Clésio é advogada especializada em planejamento imobiliário e traz, quinzenalmente, temas ligados ao dia a dia de quem está pensando em comprar, vender, construir, regularizar, investir ou alugar um imóvel.

Porque é importante formalizar negócios de mercado imobiliário, de obras e de decoração

Muitas dessas relações ainda começam com confiança verbal, mensagens ou orçamentos informais; sem contrato detalhado e sem vistoria registrada, cada parte passa a ter sua própria versão dos fatos

Publicado em 25/03/2026 às 01h58
Atualizado em 25/03/2026 às 04h58
O Seguro Habitacional é responsável por proteger o comprador e o banco em contratos de financiamento imobiliário
O contrato não é burocracia — é prevenção e funciona como um roteiro do acordo, estabelecendo prazos, responsabilidades, entre outros. Crédito: Shutterstock

Comprar, reformar, alugar ou decorar um imóvel costuma ser um momento importante na vida de qualquer pessoa. O problema é que muitas dessas relações ainda começam com confiança verbal, mensagens de WhatsApp ou orçamentos informais. O que parece suficiente no início frequentemente se transforma em conflito depois — e quase sempre o motivo é o mesmo: a ausência de um contrato claro.

No mercado imobiliário, por exemplo, uma situação bastante comum ocorre na entrega de um imóvel alugado. O inquilino devolve o apartamento acreditando que tudo está correto, mas o proprietário entende que houve danos ou retirada indevida de itens. Surge então a dúvida: o armário planejado faz parte do imóvel?

E as luminárias? E o cooktop? Sem contrato detalhado e sem vistoria registrada, cada parte passa a ter sua própria versão dos fatos. O que poderia ser resolvido em minutos acaba virando discussão, retenção de caução e até processo judicial. Outro exemplo frequente ocorre na compra e venda de imóveis. 

Muitas pessoas visitam um apartamento decorado e imaginam que determinados elementos — espelhos, ar-condicionado, marcenaria ou iluminação — estarão incluídos. Porém, se isso não estiver expressamente previsto no contrato, o vendedor pode retirar os itens antes da entrega das chaves.

A frustração é grande, mas juridicamente o problema nasce da falta de previsão escrita. Na construção civil, a ausência de contrato pode gerar conflitos ainda maiores. Imagine uma obra residencial em que o proprietário solicita mudanças durante a execução.

Sem cláusulas que tratem de alteração de projeto, custos adicionais e prazos, surgem discussões: o construtor afirma que houve acréscimo de serviço, enquanto o cliente entende que já estava incluído no valor combinado. Da mesma forma, divergências sobre padrão de acabamento — tipo de piso, pintura ou qualidade dos materiais — são extremamente comuns quando o contrato não especifica detalhadamente o que seria entregue.

No setor de decoração e design de interiores, onde as relações costumam ser mais informais, os problemas também aparecem. Um designer desenvolve um projeto personalizado e adquire peças específicas para o ambiente. Após a execução, o cliente cancela a contratação ou decide não concluir o projeto. Sem contrato, surgem perguntas difíceis: quem fica com os móveis? Há direito de reembolso? O profissional deve ser indenizado? Muitas vezes a discussão deixa de ser técnica e passa a ser jurídica.

Por isso, o contrato não é burocracia — é prevenção. Ele funciona como um roteiro do acordo, estabelecendo prazos, responsabilidades, padrão de entrega, forma de pagamento e consequências em caso de descumprimento. Um simples laudo de vistoria com fotos na entrada e saída de um imóvel, por exemplo, costuma evitar grande parte das disputas locatícias.

A assessoria jurídica, nesse contexto, não deve ser vista como custo extra, mas como proteção patrimonial. Um contrato bem redigido preserva não apenas o dinheiro investido, mas também a relação entre as partes.

Em um mercado cada vez mais valorizado e emocionalmente relevante como o imobiliário, a clareza das regras é o que transforma um sonho realizado em experiência tranquila — e impede que ele se torne um problema judicial.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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