No banco dos réus, os integrantes do “núcleo crucial” da tentativa de ruptura democrática adotaram uma postura que contrasta com a de quando conspiraram para dar um golpe de Estado no Brasil. As bravatas, grosserias, gritos, palavras de baixo calão e maledicências de toda a sorte cederam lugar a um aparente ambiente de respeito à liturgia e às instituições constituídas e a um tom de voz mais baixo. O ministro Alexandre de Moraes, antes exaustivamente chamado de canalha por Bolsonaro, foi convidado pelo próprio ex-presidente, obviamente em tom de piada, para ser seu vice nas próximas eleições.
Munido de um exemplar da Constituição da República, outrora desrespeitada pela sanha golpista, o ex-presidente Bolsonaro apostou no esquecimento histórico e tentou convencer que, em vez de algoz, era, em sua visão, um defensor da democracia. Porém, apesar de dizer sempre ter atuado dentro das “quatro linhas da Constituição” – metáfora futebolística nunca bem explicada –, essa versão não condiz com o tom de seu governo, que não hesitou em questionar a credibilidade do regime democrático e demonstrou, publicamente, disposição para descumprir ordens judiciais para se manter no poder.
Importante reiterar que, diferentemente do que tentam propagar os extremistas, as Forças Armadas não são uma espécie de Poder Moderador que teria a legitimidade de permitir ou impedir que o vencedor das eleições assumisse o posto ao qual foi eleito. Tanto é verdade que a moldura jurídica planejada na intentona sob Bolsonaro em muito lembrou aquela utilizada no golpe militar de 1964, em especial quando se analisa a “Minuta do Golpe”: a distorção de normas e regras para dar aparência de legalidade à ruptura constitucional e democrática. Isso sem contar que entre os radicais havia elementos ainda mais extremistas que queriam o uso da força, incluindo o assassinato de autoridades que se colocassem como obstáculo à conspirata.
O próprio Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional na gestão Bolsonaro, embora tenha exercido seu direito constitucional ao silêncio e se resguardado de responder apenas aos questionamentos previamente acertados com seu advogado, deixou escapar, em outras palavras, que o plano golpista só não foi adiante porque não haveria “clima”. Esse “clima” que Augusto Heleno diz ter faltado para prosseguirem nas investidas contra o Estado democrático de direito provavelmente referia-se à falta de apoio nos quarteis e nas ruas, daí o 8 de Janeiro.
Felizmente, o 8 de janeiro de 2023 não reeditou o golpe 1964, que culminou na deposição do então presidente João Goulart; desta vez, indubitavelmente, a trama falhou! E o golpe não foi consolidado porque, como posteriormente demonstrou a Procuradoria-Geral da República, nem todos do alto escalão das Forças Armadas, ainda que fortemente pressionados, cederam à pretensão autoritária de Bolsonaro.
As evidências colocam em situação complicada os principais líderes do bolsonarismo, incluindo o próprio Jair Bolsonaro, que, além de ser beneficiário direto, tinha conhecimento da trama golpista e a ela anuiu. A cronologia e o contexto geral colocam-no no centro do crime. Não convenceu a tentativa de, ao ser interrogado, praticamente solidarizar-se com a democracia e tentar suavizar a imagem fazendo piadas.