O dia 31 de março nos chega no exato momento em qual a sociedade brasileira se divide entre aqueles que defendem a anistia para os golpistas de 8 de janeiro e aqueles que gostariam de ver responsabilizados todos os que direta ou indiretamente estiveram envolvidos nos atos que desembocaram na tentativa frustrada de implantação de uma nova ditadura militar no Brasil.
Não há dúvida alguma de que estivemos muito próximos de uma repetição de um dos golpes mais sangrentos e violentos que a sociedade brasileira já vivenciou, apesar de muitos fecharem os olhos, convenientemente ou por ignorância, para a triste realidade a que foram submetidos todos os que, há 61 anos, ousaram se indispor contra o arbítrio, mantendo-se fiéis às suas consciências e à defesa da democracia.
O certo é que por pouco, muito pouco, teríamos nos tornado , de novo, cativos do destino cruel, violento, insano, brutal e apodrecido, ética, jurídica e cognitivamente falando, de uma ditadura militar, que deixou marcas que jamais serão apagadas e centenas de desaparecidos, mortos, violentados e silenciados pelo medo e pelo horror da tortura.
Por pouco não passamos a viver distantes e carentes dos ideais e valores típicos das democracias, com seus pilares civilizatórios e humanitários, baseados na liberdade, na fraternidade, na humanidade e na justiça. Por pouco, muito pouco, não mergulhamos nas trevas ameaçadoras, insolentes, intimidadoras, arrogantes e hipócritas, travestidas de segurança nacional, seriedade e ordem e progresso.
Estivemos à beira do caos, do precipício, da nefasta violência urdida no submundo dos interesses escusos, sejam eles de militares, de políticos inescrupulosos, de elites descompromissadas com os interesses da sociedade, sejam de pessoas simples do povo, que por desconhecimento se deixaram alienar no conforto e na comodidade de um status quo, ignorante e descompromissado com o conhecimento e com a verdade.
Seja por ingenuidade, seja por ignorância, seja por falta de escrúpulos e compromisso com a verdade, com a ética e com a justiça, o certo é que, por pouco, não nos desviamos do futuro e mergulhamos definitivamente nas águas turvas, escuras e apodrecidas pela sujidade sem limites daqueles que estupram, matam e violentam os corpos e o espírito.
A defesa da anistia ou da flexibilização das penas para os golpistas de 8 de janeiro é fechar os olhos para a verdade e para a história. É descompromissar-se com a dignidade da pessoa humana e com os valores mais fundamentais da democracia e da humanidade, seja ela fundada em princípios cristãos, seja de qualquer outro sustentáculo transcendental de matriz religiosa.
É inaceitável que o crescimento dos evangélicos no Brasil coincida com o aumento da violência em todas suas matizes e que os que se dizem cristãos defendam a ditadura como vêm defendendo na atualidade e como já o fizeram em passado não tão distante, como o nazismo e a própria ditadura civil-militar brasileira.
Não há razão nem argumentos teológicos ou jurídicos para a defesa da ditadura e de tudo o que ela representa. Quando vejo cristãos que se apresentam como fervorosos e devotos defenderem torturadores que estupraram e mataram com requintes de crueldade todos os que deles discordavam, e até mesmo crianças, ponho-me a refletir sobre qual a distopia, qual a loucura ou qual a cegueira à qual estão submetidos.
A adesão de muitos jovens ao discurso de defesa da ditatura, da violência e do arbítrio é demonstrativa do fracasso de nossa educação que se acomodou em uma história asséptica, despolitizada e superficial dos discursos acomodados de uma educação que, longe de emancipar, enclausura pensamentos e os torna cativos de interesses não democráticos e não comprometidos com a justiça social.
Embarcar no discurso da anistia e da fragilização das penas para os que cometeram crimes contra o Estado Democrático de Direito, fomentando o golpe e pavimentando o caminho para a ruptura democrática e de respeito aos valores mais caros à civilização, é repetir os horrores que tantos sofreram, estabelecendo um novo e vergonhosos pacto de silenciamento e ocultamento da verdade.
Militares são homens comuns e estão submetidos às mesmas fragilidades de caráter as quais qualquer outro homem comum do povo está e, como tal, devem ser julgados. Não há santidade nem entre religiosos que se dizem representantes de Deus na Terra, quanto mais militares forjados na caserna, exercitando-se, na maior parte da vezes, para ações de guerra e não de paz. A memória é pedagógica e como tal precisa ser trazida sempre ao pensamento e à reflexão.
Se o golpe de 8 de janeiro tivesse prosperado, eu, certamente, não estaria vivenciando a liberdade de escrever e de me manifestar publicamente acerca daquilo sobre o qual reflito. Relembrar a ditadura com todas as cores vermelhas do sangue de tantos é um ato de coragem e de lucidez. A dor que nos traz a lembrança das violentas práticas ditatoriais vividas nos anos da ditadura civil militar no Brasil também é pedagógica e preventiva.
Se o golpe de 8 de janeiro tivesse prosperado, estaríamos hoje vivenciando a falta de liberdade típica dos regimes ditatoriais, nos quais sofrem todos, mas de modo mais agravado os mais vulneráveis e vulnerabilizados social e economicamente falando.