Publicado em 11 de junho de 2025 às 11:29
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) negou em depoimento ao STF (Supremo Tribunal Federal) nesta terça-feira (10) que tenha discutido planos para dar um golpe de Estado após a vitória de Lula (PT) na eleição presidencial de 2022, mas admitiu ter discutido com chefes das Forças Armadas alternativas, segundo ele, dentro da Constituição.>
O ex-presidente disse que, "em poucas reuniões, abandonamos qualquer possibilidade de uma ação constitucional". "Abandonamos e enfrentamos o ocaso do nosso governo." Mas admitiu ter visto de "modo rápido", em uma "tela", documento apresentado durante reunião com chefes militares e disse, em seguida, que foi levantada a ideia sobre um "estado de sítio", mas que nada foi para frente.>
Esta foi a primeira vez que Bolsonaro esteve diante do ministro Alexandre de Moraes para ser interrogado na condição de réu. Foram duas horas e sete minutos de depoimento, em que o ex-presidente respondeu a perguntas formuladas por Moraes, pelo ministro Luiz Fux, pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e por advogados.>
MENTIRA>
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O ex-presidente mentiu ao justificar medidas que tomou contra a imprensa nos quatro anos de seu mandato (2019-2022). Em depoimento, Bolsonaro disse que as iniciativas não tiveram como objetivo minar os veículos de imprensa, mas buscar uma economia de gastos dentro do Orçamento.>
"O senhor [Moraes] não imagina o que é trabalhar de domingo a domingo (...) e sendo massacrado o tempo todo por grande parte da nossa mídia. Porque não é que eu cortei a propaganda por maldade. É que eu tinha teto de gastos", disse o presidente.>
Na prática, porém, o objetivo do então presidente não era econômico.>
Como presidente, Bolsonaro atacou diferentes veículos de imprensa, xingou jornalistas, escolheu as mulheres como o seu principal alvo, cancelou assinaturas de jornais, cortou verba publicitária, ameaçou cassar concessões e coagiu empresários para que deixassem de anunciar em órgãos de mídia.>
INTERFERÊNCIA NA ELEIÇÃO>
Apesar de ter repetido muitas das afirmações que já tinha dado em entrevistas e lives, Bolsonaro ainda não tinha admitido à corte formalmente que tivesse conversado sobre "possibilidades" com comandantes das Forças Armadas depois de ter sido derrotado nas eleições de 2022.>
"Nós buscamos alguma alternativa na Constituição e achamos que não procedia e foi encerrado", afirmou Bolsonaro ao ministro relator, Alexandre de Moraes, nesta terça-feira (10).>
"Essas reuniões que ocorreram foram, em grande parte, em função da decisão do TSE [Tribunal Superior Eleitoral]", disse Bolsonaro, acrescentando que teria discutido alternativas depois de se ver tolhido de questionar o desfecho eleitoral diante da multa de R$ 22 milhões aplicada ao seu partido.>
As falas de Bolsonaro se afastam do tom de sua defesa formal apresentada até agora ao STF, que buscava colocar sob suspeita as declarações de Mauro Cid e debater tecnicamente o enquadramento criminal dos supostos atos imputados ao ex-presidente.>
LEGALIDADE DETURPADA>
Em interrogatório, o ex-presidente e seu ex-ajudante de ordens Mauro Cid deturparam noções de legalidade para justificar discussões golpistas que teriam como objetivo impedir a posse de Lula, avaliam especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo.>
Para eles, Bolsonaro e Cid acionaram uma ideia de "legalidade instrumental" entranhada na cultura militar que deturpa o conceito real de legalidade e afronta à Constituição.>
Um exemplo disso é a fala de Bolsonaro no interrogatório desta terça-feira (10), quando o político voltou a dizer que sempre agiu dentro dos limites da Carta Magna. Ao mesmo tempo, ele admitiu ter conversado sobre "alternativas" e chegou a fazer menção à discussão de estado de sítio, em contexto legal que não justificava as medidas.>
O estado de defesa, que Bolsonaro já admitiu mais de uma vez ter considerado, restringe liberdades individuais e é acionado para preservar a ordem pública ou a paz social ameaçadas por graves crises. Ainda mais extremo, o estado de sítio é previsto em casos de comoção de repercussão nacional ou guerra, por exemplo. Para ser decretado, precisa de autorização do Congresso Nacional.>
AGORA SÃO 'MALUCOS'>
Bolsonaro chamou de "malucos" os apoiadores que montaram acampamentos golpistas em frente a unidades militares após as eleições de 2022 e que pediam intervenção das Forças Armadas para impedir a posse de Lula na Presidência da República.>
Após a eleição, porém, foi o próprio Bolsonaro que incentivou a criação e a manutenção dos acampamentos golpistas que se alastraram pelo país e de onde saíram os manifestantes dos ataques do 8 de Janeiro.>
"Por favor, doutor Paulo Gonet, eu não torci para o pior. Se eu tivesse torcido para o pior, não teria desmobilizado os caminhoneiros lá atrás e, talvez pela minha figura, o pessoal não fez absurdo", afirmou Bolsonaro, em resposta ao procurador-Geral da República, Paulo Gonet. Ele também citou o Ato Institucional nº 5, que cassou uma série de direitos durante a ditadura militar.>
"Agora, tem sempre uns malucos ali que ficam com aquela ideia, de AI-5, intervenção militar, que as Forças Armadas, os chefes militares jamais iam embarcar nessa, porque o pessoal estava pedindo ali, até porque não cabia isso aí e nós tocamos o barco", disse Bolsonaro. "Então, me desculpa, respeitosamente, vossa excelência, nós não estimulamos nada de anormal.">
EVASIVO SOBRE URNAS>
Questionado por Moraes sobre qual seria seu fundamento para alegar que havia fraude nas eleições e nas urnas eletrônicas, o ex-presidente não respondeu diretamente à pergunta.>
No lugar disso, apontou falas de outros políticos com críticas às urnas e seu histórico de defesa pelo voto impresso na Câmara dos Deputados.>
Moraes começou o interrogatório citando falas de reunião ministerial de Bolsonaro em 5 de julho de 2022 e questionou qual fundamento Bolsonaro tinha, concretamente, para "alegar que havia fraude nas eleições, na urnas e que os ministros do TSE estariam direcionando as eleições.>
Mencionando falas de políticos como Flávio Dino, hoje ministro do STF, e Carlos Lupi (PDT), disse que "a suspeição das urnas não é algo privativo meu". Por mais de uma vez, assim como fez ao longo de seu governo, Bolsonaro também citou relatório de peritos criminais federais com críticas ao sistema eleitoral.>
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