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"Gabinete paralelo"

Em um país sério, um ministro que beneficia igrejas já teria caído

Milton Ribeiro, que assumiu o MEC no lugar de Abraham Weintraub, deu prosseguimento a uma política de aparelhamento das instituições públicas em prol de interesses privados e de proselitismo político-ideológico

Publicado em 25 de Março de 2022 às 02:00

Públicado em 

25 mar 2022 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

Sede do Ministério da Educação, em Brasília
Sede do Ministério da Educação, em Brasília Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Depois do gabinete paralelo no Ministério da Saúde, quando o governo Bolsonaro preferiu dar vozes a negacionistas em vez de acreditar na ciência, agora veio à tona outra notícia de um gabinete paralelo na atual gestão. Dessa vez, no Ministério da Educação, comandado, desde julho de 2020 pelo pastor Milton Ribeiro.
Há alguns dias o jornal O Estado de São Paulo apontou a existência de um gabinete paralelo no Ministério da Educação, aduzindo a uma forte influência em verbas e na agenda do MEC por parte de pastores que oficialmente não compõem o governo. Nesta semana, o jornal Folha de S. Paulo divulgou o áudio de uma reunião em que o ministro da Educação diz aos presentes que o presidente Jair Bolsonaro teria feito um “pedido especial” para “atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”.
No áudio, além do pastor Gilmar, Milton Ribeiro também se refere ao pastor Arilton. Gilmar Santos é presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil Cristo Para Todos (Conimadb) e Arilton Moura também é da Assembleia de Deus, mas, apesar de nenhum deles ter cargo no governo, ambos participaram de diversas reuniões com autoridades nos últimos anos.
Milton Ribeiro, que assumiu o MEC no lugar de Abraham Weintraub, deu prosseguimento a uma política de aparelhamento das instituições públicas em prol de interesses privados e de proselitismo político-ideológico. Em qualquer país sério, nessas condições, o ministro já teria perdido o cargo.
Vivemos numa República, em que deve prevalecer o interesse coletivo, mesmo porque, a Constituição estabelece que aqueles que estão no poder não são os donos do poder, mas, exercentes. O poder, tal como está definido na lei maior do Estado brasileiro, pertence ao povo! Por isso, todo agente público que usa de seu cargo para defender interesses pessoais ou de um certo grupo em prejuízo aos demais desvirtua-se dos valores republicanos.
Grave também se mostra a interferência de líderes religiosos ligados ao governo em ações estatais. O Brasil é um país laico, que não se submete a uma religião oficial e, justamente por isso, não pode permitir influenciar-se por preceitos ou interesses religiosos, da mesma forma que têm o dever de respeitar, em condições de igualdade, todas as religiões.
Foi graças à Reforma Protestante que hoje, na maior parte do planeta, os Estados não possuem religiões oficiais, respeitando todas. Àquela época, Martinho Lutero já havia constatado que a mistura da religião com o Estado permitia que a corrupção de um domínio contaminasse o outro.
No entanto, desde que foi eleito, Bolsonaro tem buscado fortalecer suas relações com certos setores religiosos, citando-se, nesse sentido, a realização de ato político no último dia 8 no Palácio da Alvorada com a presença de 24 pastores e o fato de ter escolhido André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal por ser um nome “terrivelmente evangélico”.
Um país melhor e uma educação mais forte não se constroem excluindo ou dividindo, fazem-se somando, multiplicando-se o que há de bom numa sociedade essencialmente plural. Recursos públicos não pertencem a quem está no governo, devem atender ao interesse coletivo e fundado no princípio da impessoalidade, basilar em qualquer república.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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