O amor ao poder e ao dinheiro são, de fato, a raiz de todos os males.
Acostumado com a respeitabilidade e o amor incondicional dos fieis que, via de regra, tratam seus pastores com devoção quase sacerdotal, o pastor presbiteriano e ministro Milton Ribeiro se vê agora envolvido com as denúncias e falcatruas comuns que envolvem aqueles que se deixam atrair pelas “delícias” do mundo e submundo da política, no qual a ética que impera muito se distancia da ortodoxia pregada de forma veemente, enérgica e prescritiva, nos púlpitos das igrejas evangélicas.
Milton Ribeiro é um pastor considerado na comunidade presbiteriana como um homem centrado, íntegro, calmo e de espírito apaziguador.
As colisões e acirradas desavenças, e elas existem, diga-se de passagem, mesmo nas denominações evangélicas mais tradicionais, como a presbiteriana, ficam, no mais das vezes, restritas às quatro paredes das salas onde se reúnem os concílios. O que se passa nessas reuniões só chega ao conhecimento dos mais chegados ao poder, sempre concentrado nas mãos de poucos pastores e presbíteros que evitam discutir em público suas próprias mazelas.
Condutas reprováveis, não compatíveis com os preceitos cristãos, cometidas por lideranças ocupantes de cargos em algumas igrejas, são, muitas vezes, ocultadas, omitidas do conhecimento da comunidade, a fim de preservar o evangelho e o violador, que normalmente é um chefe de família que não pode ser envergonhado.
Essa imunidade, privilégio de preservação da imagem de alguns, especialmente os mais chegados, não é cultura exclusivamente evangélica. São de conhecimento público os abusos sexuais cometidos por padres e bispos da Igreja Católica.
Originado desse ambiente cultural de preservação de ministros do evangelho, Milton Ribeiro se vê, agora, às voltas com a vigilância dura e publicista da lógica que rege o mundo da política. Ministros de governo estão submetidos aos princípios da administração pública, tanto os expressos, quanto os implícitos. Legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade, eficiência foram todos eles violados, se as informações divulgadas acerca de seu gabinete paralelo se confirmarem como verdadeiras.
Pastores agenciadores de interesses privados religiosos não são compatíveis com a moralidade pública. Também não o são com a moralidade cristã média. O senhor terá que responder pelas duas, se a igreja não quiser compactuar com um anticritianismo que encobre a trave e denuncia o cisco no olho dos adversários.
Talvez nesse Estado dominado por um ditador espúrio e usurpador dos direitos o senhor não venha a ser investigado e condenado como deveria. Talvez em “nome de Deus” e a bem das eleições que se aproximam e dos interesses do governante ao qual o senhor devota sua dignidade, o senhor seja preservado, mais uma vez de suas violações.
Cristianismo conspurcado. Evangélicos envergonhados. Ministro denunciado.
Em uma análise singela dos princípios constitucionais e das normativas do Direito Público, o senhor e os pastores lobistas teriam que responder pelas irregularidades ligadas ao tráfico de influência, à usurpação de função pública, ao uso de aviões da FAB, à alocação de dinheiro público para consecução de interesses privados.
As provas se manifestam como fortes evidências. A declaração do pastor Gilmar Santos, assumindo estar em um governo itinerante em nome do Ministro da Educação, é feita com a singeleza de quem se sente “dono do poder”.
Em um Estado laico, onde o lobby não é regulamentado, mas assumido pelo atual governo com naturalidade, pastores controlam os recursos públicos garantindo a continuidade no poder do atual governo, confiantes nos votos de cabresto que continuam a vigorar em nossa cultura.
O projeto de implantação de um Estado religioso, onde a “moral e os bons costumes" se ressignificaram, a partir de uma lógica fundamentalista, acusatória, paranoica, negacionista, anticiência, conservadora de interesses, onde os vendilhões do templo se locupletam com os recursos públicos, precisa ser denunciado e interrompido.
A luta por um Estado laico, legado dos reformadores do século XVII, no qual o respeito à liberdade religiosa e à liberdade de consciência foi considerado um valor a ser defendido, precisa ser trazida à memória como fundamento de revisão para os equívocos cometidos por instituições religiosas que porventura venham sustentando violações tão graves ao Estado Democrático de Direito e aos valores cristãos que afirmam defender.