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Violência

Armar a população não se traduz em aumento da segurança

Nesta semana, uma das vítimas de possível disparo acidental foi Naiany Gonandy, em Vila Velha. Um pouco antes disso, em Aracruz, o menino Rafael Silva Marques, de 12 anos, foi outro que teve a vida ceifada após um acidente

Publicado em 06 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

06 mai 2022 às 02:00
Caio Neri

Colunista

Caio Neri

À esquerda, a jovem Naiany Gonandy; à direita, a arma da qual saiu o disparo acidental que a matou
À esquerda, a jovem Naiany Gonandy; à direita, a arma da qual saiu o disparo acidental que a matou Crédito: Acervo da família | Archimedis Patricio | Montagem A Gazeta
Uma das promessas de campanha que o presidente Jair Bolsonaro mais tem se empenhado em cumprir é a facilitação no acesso às armas de fogo. Desde 2019 o presidente editou uma série de decretos nesse sentido, permitindo que armas antes restritas, como fuzis, possam ser livremente adquiridos por quem tem alto poder aquisitivo, já que qualquer armamento não custa barato.
Como consequência dessa série de medidas armamentistas, nos três primeiros anos do atual governo, dados oficiais indicam que triplicou o registro de armas oficiais no Brasil. O registro de porte de armas aumentou em pelo menos 50%. Entre 2020 e 2021, o volume de armas de fogo importadas para o Brasil aumentou em média 33%, destacando-se um exponencial acréscimo de 574% na importação de fuzis, carabinas, metralhadoras e submetralhadoras.
Engana-se ou tenta enganar os outros quem pensa que armas de fogo serão capazes de melhorar a segurança do brasileiro. Os resultados das medidas facilitadoras ao acesso às armas de fogo podem ser vistos nas manchetes dos principais jornais do país que, com frequência cada vez maior, têm informado sobre mortes ocasionadas por disparos acidentais de armas de fogo.
Dias atrás, o ex-ministro da Educação Milton Ribeiro  disparou acidentalmente um revólver que levava consigo enquanto fazia check-in no balcão de uma companhia aérea no aeroporto de Brasília. Aliás, já se foi a época em que pastores andavam com Bíblias embaixo do braço, hoje muitos já preferem utilizar a Bíblia para, sub-repticiamente, tentar justificar o amor às armas de fogo. É bom lembrar que a mensagem cristã original não é “armai-vos uns aos outros”, senão, “amai-vos uns aos outros”.
Por isso, volto a dizer que armar a população não se traduz em aumento da segurança, tampouco, pode-se utilizar o argumento da liberdade individual para promover uma liberação ampla e irrestrita ao armamentismo. Se não bastassem os trágicos registros de mortes ocasionadas por disparos acidentais, cabe salientar que, muitas vezes, armas adquiridas pelas formas legais acabam na mão de criminosos, em especial do crime organizado e das milícias. Quanto mais armas no país, mais fácil será o acesso dos criminosos a elas!
Na contramão do “libera geral” das armas de fogo no Brasil, o governo Bolsonaro pretende taxar em 12% o mercado editorial, que é isento por lei desde 2004. Segundo o governo, os livros devem ser taxados porque pobres não compram livros. Um verdadeiro contrassenso! Se o governo sustenta que pobres não compram livros, o caminho deveria ser o oposto, incentivar a leitura em vez de criar ainda mais obstáculos.
Parafraseando um slogan pacifista histórico, valeria dizer que deveríamos espalhar conhecimento e amor em vez de armas, mesmo porque, livros são bem mais baratos que armas.

Caio Neri

E graduado em Direito pela Ufes e assessor juridico do Ministerio Publico Federal (MPF). Questoes de cidadania e sociedade tem destaque neste espaco.

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