Muitos de nossos leitores e leitoras já devem, por agora, ter visto nas ruas da cidade de Vitória um grupo diferente de pessoas, dentre eles mulheres, idosos, crianças, segurando placas com dizeres indicando que são venezuelanos e gostariam de receber doações. A coluna de hoje é para esclarecer quem são essas pessoas e quais são as suas peculiaridades.
O grupo é composto por refugiados da etnia Warao, um povo indígena milenar da Venezuela que, devido às condições de graves violações de direitos humanos no território onde habitavam, vieram para o Brasil e aqui pediram refúgio.
Refúgio, como se sabe, é o pedido de acolhimento em um país diferente do seu em razão de fundado temor de perseguição ou de grave violação de direitos humanos em seu país de nascimento. Essa é a situação dos Waraos que estão aqui no Estado.
Atualmente, temos um grupo composto de seis unidades familiares, contando com 51 pessoas, dentre elas crianças e adolescentes. Essas famílias chegaram a Vitória em agosto deste ano, vindos do interior da Bahia.
O grupo iniciou sua caminhada até aqui a partir da capital do Estado de Delta Amacuro, que fica no nordeste da Venezuela. De lá, por meio de um transporte terrestre, chegou à fronteira com o Brasil depois de aproximadamente 12 horas de viagem. Eles atravessaram a fronteira na cidade de Pacaraima, em Roraima, e por dois anos vêm descendo pelo nosso território até chegarem a Vitória.
Difícil imaginar os percalços e o sofrimento que é deixar a sua terra natal, mais difícil ainda se isso representar a separação de seu território e de sua cultura. Nós aqui no Brasil, hoje, já sabemos quão importante é o território e a cultura para os povos tradicionais. Nem sempre fomos cientes disso, haja vista como tratamos os nossos indígenas e o povo quilombola. Quantos anos se passaram de opressão e humilhação.
É por isso, a partir do aprendizado que acumulamos, que devemos tratar essa população indígena, que bateu às nossas portas em busca de acolhimento, com toda dedicação e carinho, provendo a eles uma vida digna e sem preconceitos.
O primeiro passo é entender que não podemos impor a nossa forma de vida a eles. Se moramos em um lugar fechado, se comemos com talheres e se usamos a geladeira para estocar alimentos, não quer dizer que uma cultura tradicional seja obrigada a adotar esses mesmos hábitos.
Há outros hábitos que para eles são mais importantes, que são, na verdade, como rituais de conexão com a sua ancestralidade que foi deixada para trás num movimento de fuga para outro país.
É por isso, queridos leitores e leitoras, que se vocês virem algum Warao nas ruas da cidade, tentem agir com cordialidade. Eles não são caso de polícia, mas de pessoas em busca de acolhimento, generosidade e reconhecimento.