Nas últimas semanas, vimos chegar a Vitória um grande grupo de refugiados venezuelanos indígenas, da etnia Warao. Hoje esses refugiados estão abrigados em um equipamento da Prefeitura de Vitória, localizado no Bairro de São Pedro, nas proximidades do que a comunidade local chama de Bairro São José.
São várias as dificuldades que se pode apontar com relação ao abrigamento dos Waraos nos centros urbanizados, mas vamos considerar aqui somente as complexidades da região onde está o grupo em Vitória.
Relembramos que uma primeira parte do grupo que hoje se encontra em Vitória chegou no dia 16 de agosto e o restante no dia 30. O grupo que se reuniu aqui é todo considerado parte de uma grande família ou um grande agrupamento familiar.
Os waraos são uma etnia indígena originária do norte da Venezuela, mais precisamente do Estado Delta Amaruco, sendo que lá viviam no delta do Rio Orinoco, uma região alagada e de floresta tropical, com alguma semelhança à nossa Floresta Amazônica.
Acostumados, portanto, a viver da pesca, da coleta de frutos e sementes, passaram a ter que se adaptar à vida nas cidades quando foram obrigados a migrar devido à situação de grave violação de direitos humanos, atualmente, na Venezuela.
Assim, além de se adaptar a um novo estilo de vida nas cidades e regiões urbanizadas, os waraos também têm que se adaptar em um novo país, com língua e culturas diferentes. Essa adaptação é algo que ainda está acontecendo, e por todo os lugares do Brasil onde eles atualmente se encontram, os waraos vêm sendo estudados para que ocorra de forma a não promover o apagamento da cultura original dessa etnia.
Na verdade, falar em adaptação representa uma via de mão dupla, pois não só os waraos precisam se adaptar a algo novo, como também a comunidade que os recebe precisa entender a sua cultura e seus hábitos que são milenares.
Ao acolher refugiados as comunidades onde eles estão abrigados se veem, geralmente, diante de um grande desafio. O novo e o diferente que o grupo representa têm que dar lugar no imaginário da comunidade de acolhida a um grupo de pessoas que precisam ser compreendidas e reconhecidas tal como são, principalmente em suas diferenças.
Algo importante a se ter em mente é que não se pode, de um dia para o outro, pretender mudar a cultura e o jeito de ser dos waraos. A forma como eles vivem, a língua, o que comem, como escolhem suas lideranças, como se mantêm vivos nas cidades brasileiras, tudo isso é algo que ainda está sendo estudado e compreendido por antropólogos que vêm pesquisando o modo de vida dessa etnia, desde que os primeiros waraos solicitaram refúgio no Brasil em 2014.
Por esse motivo é que as autoridades dos locais onde eles chegam, em especial no Bairro São Pedro em Vitória, devem agora promover debates e conversas com as comunidades e lideranças locais. Ouvir a população de São Pedro (em especial da Região de São José) e fazer chegar a ela toda informação que se tem sobre a etnia warao facilitará, em muito, a nova dinâmica da vida nessa parte da cidade onde o grupo passou a residir.
O principal objetivo deve ser informar para evitar o estranhamento que pode levar a atos de xenofobia e violência contra o grupo warao. A primeira causa da xenofobia é o desconhecimento, a ampla divulgação de informações vai, portanto, reduzir os riscos de atos de preconceito contra o grupo estrangeiro.