No dia 20 de junho, a comunidade internacional celebra o Dia Mundial do Refugiado, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) na virada do século, no ano 2000, por meio do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Essa data tem por objetivo lembrar a humanidade da trajetória de pessoas que são obrigadas a sair da sua terra natal em busca de acolhimento em outros países.
Em razão disso, trago hoje na minha coluna o depoimento da Adriana Esperanza Blanco González, venezuelana, que vive aqui no Brasil há quatro anos, sobre o que é migrar, as dificuldades e o que ainda precisamos aprender para melhorar o acolhimento no nosso Estado:
“Quando falamos de migrações e seu início, voltamos mais de 70.000 anos para nos encontrarmos no início da humanidade, estudos dizem que as migrações surgem no continente africano e, a partir daí, o mundo é povoado. Essas primeiras migrações foram necessárias para que a espécie humana se desenvolvesse, mas, acima de tudo, para que pudesse se estender e cobrir o planeta em sua totalidade como o conhecemos hoje. Isso nos leva a supor que todos os seres humanos em algum momento foram migrantes ou alguém da nossa família migrou mesmo que sejam parentes distantes de uma outra geração. Como diz o escritor Humberto Márquez Covarrubias (2012): a migração se torna uma prática diária e tradicional das cidades que vêm moldar toda uma cultura.
No entanto, as causas atuais pelas quais as pessoas deixam seu país em busca de melhores condições de vida são guerras, crises econômicas e políticas, além de outros motivos como catástrofes climáticas. Essas pessoas tomam a decisão de ir para outro país, e as situações em que viajam são muito variadas, algumas vão mais longe, outras vão sozinhas, quem tem mais sorte pode ir com a família. Na verdade, depende de muitas variáveis, para elas a coisa mais importante naquele momento é a esperança de começar de novo e ter um futuro melhor.
Há quase quatro anos, eu mesma, devido à crise política e social em meu país, a Venezuela, como milhões, tomei essa decisão. Vindo para outro país, com uma cultura e até mesmo um idioma diferente, isso não é feito simplesmente, a menos que seja realmente necessário. Você não pode trazer muitas coisas, então você aprende que é preciso começar do zero.
Considero ter escolhido um país que é maravilhoso, porque é uma mistura de muitas migrações e, na época, eu pensava que seria comum aqui viver com outras culturas. Porém, muitas pessoas rejeitam o imigrante e, apesar da existência de uma série de leis e acordos que protegem seus direitos de permanecer de vez, trabalhar e estudar, muito poucas pessoas alcançam esses benefícios.
A esse respeito, posso acrescentar que é um fato conhecido e amplamente estudado pelo ACNUR que a maioria dos imigrantes, especialmente aqueles que entram ilegalmente em outros países, estão expostos a maus-tratos, exploração, xenofobia, tráfico de pessoas, entre outras mazelas sociais; e, na maioria das vezes, eles vivem com medo de serem deportados.
É um problema difícil para os respectivos governos e é aí que as ONGs que pretendem fazer trabalho social aparecem, além das universidades, igrejas e outros ambientes sociais. Os imigrantes sofrem mais xenofobia e preconceito, mesmo que morem perto das fronteiras, primeiro porque chegam em maior número e com menos recursos de subsistência e, em segundo lugar, devido ao fato claro de que os exploradores sabem que ali existem pessoas vulneráveis.
Deve-se notar que as ONGs são mais eficazes em ajudar os imigrantes porque têm a possibilidade de abordar, conhecer e entender as reais necessidades das pessoas a quem assistem e, na minha opinião, os imigrantes precisam de um sistema que nos receba dessa maneira. O país fornece a documentação necessária para trabalhar e estudar, bem como para entrar no mercado de trabalho, que pode comparar o potencial que o imigrante traz e que pode desenvolvê-los de modo a contribuir com seus conhecimentos para o desenvolvimento do Brasil.
Para finalizar, quero deixar claro que os migrantes sabem que o Brasil está em crise e muito mais agora com essa pandemia, a crise é global. É hora de permitirmos nos conhecer, tirar proveito da riqueza da diversidade cultural e étnica, aproveitar o melhor de cada um deles para construir e oferecer um Brasil melhor e um mundo melhor para nossos filhos. E isso só será alcançado com muito diálogo, tolerância e ética.”