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Migrantes

A invisibilização dos estrangeiros que estão no Espírito Santo

Poucas pessoas aceitam a existência de migrantes. Menor ainda é o grupo daqueles que estão dispostos a empregar estrangeiros em seus comércios, empresas, escolas e domicílios

Públicado em 

20 mai 2020 às 05:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Indígenas venezuelanos, da etnia Warao, acolhidos no abrigo Janokoida, em Pacaraima
Indígenas venezuelanos são acolhidos em abrigo no Norte do país Crédito: Marcelo Camargo/Arquivo Agência Brasil
São várias as lições que a pandemia do coronavírus trouxe para o nosso dia a dia, uma delas é a de que a nossa sociedade invisibiliza os diferentes. Poucas pessoas sabem que muitos estrangeiros, forçados a sair de seus países, vivem hoje em dia no Espírito Santo. Diferentemente da migração regular, que é planejada e abastecida com recursos financeiros, a migração forçada não tem data de ida nem de volta, não envolve lugares chiques e da moda, tampouco universidades particulares de elite. Hoje em dia, são quase 70 milhões de migrantes forçados no mundo, muitos deles aqui em nosso Estado.
Segundo o filósofo Axel Honneth, existem no mínimo três tipos de invisibilidade, uma delas física, que refere-se ao não enxergar efetivo, como acontece, por exemplo, quando os moradores da Praia da Costa deixam de enxergar as centenas de pessoas que moram nas ruas daquele bairro, em Vila Velha, no Espírito Santo.
Outro tipo de invisibilidade é a que pretende não ver, como a do chefe de família que finge não ver a faxineira que limpa a sua casa todas as terças-feiras. Mas, para Honneth, o pior tipo de invisibilização é a que “vê através”. O exemplo que ele usa para este caso é o de um homem branco que entra no ônibus e demonstrativamente olha através de um negro sentado num dos bancos do coletivo.
Honneth entende que o “ver através” é a pior forma de humilhação do ser humano, pois não é um simples deixar de ver, ou ignorar propositadamente, mas é enxergar e deixar de ver ao mesmo tempo. Aquele branco que “olha através” do negro no ônibus deixa bem claro aos demais passageiros ao seu redor que ele transpassa o corpo negro com o seu olhar de forma proposital, mesmo o vendo, deixa de enxergá-lo.
O exemplo do transporte coletivo é tirado da sociedade americana da década de 1960, no auge da disputa pelos direitos civis e políticos da população negra nos Estados Unidos. Essa mesma reflexão pode ser feita para o Brasil de hoje. Aqui, os negros são humilhados por meio da conduta da população não-negra que “vê através” de seus corpos, negando a sua existência e o lugar que ocupam na sociedade.
Com os migrantes forçados a situação tem-se demonstrado a mesma. Poucas pessoas aceitam a sua existência. Menor ainda é o grupo daqueles que estão dispostos a empregar estrangeiros em seus comércios, empresas, escolas e domicílios. Somente com muito esforço é que uma pessoa estrangeira, vinda de um país pobre e em situação de violação de direitos humanos como a Venezuela e a Síria, consegue um emprego formal no Espírito Santo.
Nessa época de pandemia, nem mesmo o serviço essencial de saúde atende aos estrangeiros, renegados que estão a um lugar não visto. Se estão na fila para atendimento dos hospitais lotados, o olhar dos não-estrangeiros passa através dos corpos estranhos (estrangeiros).
Há duas semanas, uma aluna minha pediu ajuda para fazer um exame de endoscopia, pois tendo sido atendida no PA de Carapina por mais de uma vez foi informada que o sistema público não poderia arcar com a realização do exame no momento. Ninguém a atendeu. Passando de porta em porta de hospitais, nos foi informado que todos os locais de atendimento estavam preparados para atender os casos de Covid-19, e que ela não era um desses casos.
Não só olhavam através dela, como também falavam através dela, como se ela não estivesse ali naquele lugar, naquele espaço, como se ela, por ser estrangeira, não tivesse entendendo a nossa língua. Imagino que tenha sido esse o comportamento dos portugueses quando encontraram os índios aqui no Brasil, ao invés de tentar entendê-los foram logo ensinando a sua língua, a sua religião, determinando que aqueles que não se adequassem seriam mortos, exterminados. Essa é nossa história, que no ir e vir dos tempos volta a acontecer.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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