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Educação

A difícil função de ser professor(a) em épocas de ensino virtual

Tem sido muito comum ver aulas virtuais em que o professor fala sozinho diante de várias janelinhas sem cor e sem som. O respeito aos mestres, que já era pouco, foi levado pelo ralo durante a pandemia

Publicado em 21 de Abril de 2021 às 02:00

Públicado em 

21 abr 2021 às 02:00
Brunela Vincenzi

Colunista

Brunela Vincenzi

Ritmo de trabalho em home office que não separa mais descanso e trabalho
Ritmo de trabalho em home office que não separa mais descanso e trabalho Crédito: Gomiche/ Pixabay
Temos relatos de que na Antiguidade a função de ensinar era conferida a um sábio, que passava seus conhecimentos aos discípulos interessados. Não só o sábio, como também os discípulos eram escolhidos a dedo.
Sócrates ensinava principalmente na Ágora ateniense, uma praça pública onde a democracia se realizava. Posteriormente, seu discípulo Platão fundou a Academia e passou a lecionar lá. Aristóteles também teve seu próprio local de ensino, o Liceu, onde transmitia os seus conhecimentos para um grupo de alunos escolhidos pelos mestres.
Na Índia milenar, a tradição védica também era passada do Guru ao discípulo. Todo conhecimento era transmitido oralmentente, sendo os professores de extrema importância, pois só eles tinham o conhecimento disponível em determinado local e momento histórico para compartilhar com um grupo grande de pessoas.
Na Alta Idade Média surge a primeira Universidade em Paris e, a partir de então, a educação superior vai se formando como a conhecemos hoje. Certo é que, desde então, houve uma série de mudanças que tornaram a educação superior mais inclusiva, democrática e agregadora. As mulheres e os estrangeiros, pessoas que não eram aceitas na Ágora ateniense, há tempos fazem parte da comunidade universitária.
No Brasil de hoje, as universidades são um local plural e democrático, onde se pensa coletivamente a ciência. A inclusão de uma grande diversidade de pessoas, que no século passado não tinham acesso à educação superior, fez com que, a partir da segunda década do século XXI, a face das salas de aula se alterassem. É fantástica e maravilhosa a mudança operada na educação superior no Brasil nos últimos tempos; quem como eu estudou em uma universidade federal no século passado, alegra-se ao ver tamanha diversidade nos campi.
A educação universitária tem como característica a possibilidade de debate, de engajamento em temas complexos por meio de pesquisa e extensão, mas o seu ponto focal está no ensino. Se desde a Antiguidade o conhecimento era passado do professor aos discípulos sem barreiras físicas, como lidar com a mudança (que foi acelerada pela pandemia da Covid-19) do sistema de ensino físico para o virtual?
Certo que há alguns anos o ensino superior vinha flertando com formas alternativas de ensino, por um lado inclusivas, por outro lado altamente rentáveis para os conglomerados financeiros detentores dos grandes grupos universitários. Ao passo que temos muitas pessoas assistindo a aulas fantásticas mundo afora, temos também empresários lucrando absurdamente com a repetição infindável de aulas gravadas uma vez só, sem compromisso verdadeiro com a transmissão do conhecimento.
A pandemia trouxe para o sistema de educação superior de qualidade um problema ainda maior do que esses, quando colocou todas as áreas do ensino em modo virtual. A Covid-19 alterou a forma como o conhecimento é passado, retirando em grande parte o sentimento de gratidão daqueles que recebem o conhecimento em relação aquele que o oferta.
Em outras palavras, é preciso dizer que há um esforço hercúleo por parte dos mestres no Brasil pandêmico para conseguir transmitir aos estudantes o conhecimento que por anos a fio foram adquirindo, compilando, refletindo e, principalmente, dividindo. Ser professor(a) é querer dividir o que sabe, compartilhar com alguém um conhecimento. A pandemia fez com que essa transmissão que sempre foi oral e pessoal passasse a ser distanciada, que na maioria das vezes é recebida de forma indiferente pelos estudantes.
Eu tenho visto muito esforço por parte de professores, principalmente professoras, nestes tempos difíceis, muitas adoecidas com o excesso de carga horária que lhes é imposta num ritmo de trabalho em home office que não separa mais descanso e trabalho. Infelizmente, o que se vê em resposta é o descaso. Tem sido muito comum ver sessões de aulas virtuais em que o professor fala sozinho diante de várias janelinhas sem cor e sem som. O respeito aos mestres, que já era pouco, foi levado pelo ralo durante a pandemia.
Mais uma fatalidade que essa doença nos trouxe: somos uma país onde a maioria dos jovens não respeita seus mestres e não valoriza o conhecimento transmitido por meio da educação formal.

Brunela Vincenzi

Professora da Ufes, coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello ACNUR/ONU para refugiados e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ufes. Redes sociais: @brunelavincenzi

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