Em 2014, o Brasil saiu oficialmente do Mapa da Fome das Nações Unidas. Porém, em 2018, retornou vergonhosamente para o referido Mapa. Hoje em dia, em meio à pandemia de Covid-19, já são 116,8 milhões de brasileiros e brasileiras em situação de insegurança alimentar, vivendo em situação de indignidade humana.
O aumento da fome no Brasil é um paradoxo, primeiro porque havíamos alcançado em 2014 a marca histórica de sair do Mapa da Fome, com a atribuição de dignidade alimentar à nossa população. Em segundo lugar, porque o Brasil é o terceiro maior produtor de alimentos do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos e da China. Para que tenhamos uma ideia, em 2019 o Brasil produziu mais de 240 milhões de toneladas de alimentos, conforme entrevista concedida por Daniel Balaban para a BBC, publicada em 10 de outubro de 2020.
Balaban é o representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA), que foi contemplado com o Prêmio Nobel da Paz em 2020 pelo trabalho que faz no mundo inteiro lidando com a fome. Em entrevista à ONU News, divulgada em 2 de março de 2021, ele alerta para o aumento da situação de fome, especialmente de crianças, no mundo todo, em razão da pandemia de Covid-19. Mas chama muita atenção o fato de o Brasil ter conseguido se manter fora do Mapa da Fome somente por 4 anos, tendo saído antes mesmo de a pandemia começar.
Daniel Balaban relata o fato de que muitas crianças se alimentavam nas escolas e deixaram de receber suas merendas em 2020 e 2021, com as escolas praticamente fechadas. Mas não é só isso, pois não são só as crianças em idade escolar que deixaram de receber suas merendas durante a pandemia, já que, de uma forma geral, pode-se dizer que são inúmeras famílias brasileiras que passaram a viver em situação de insegurança alimentar.
Os números atualizados estão no relatório final do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN), divulgado no dia 5 de abril deste ano.
De acordo com os dados do Inquérito da Rede PENSSAN, a fome retornou aos patamares de 2004 no Brasil, e mais, os números atuais são o dobro dos de 2009. De acordo com o Inquérito, em 2013, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) revelou que 4,2% da população brasileira estava em situação de fome, o que levou à exclusão, no ano seguinte, do nome do país do Mapa da Fome da ONU.
Retrocessos seguidos de retrocessos nas políticas públicas, incrementados recentemente com a crise causada pela pandemia de Covid-19, nos trouxeram para a posição atual de 116,8 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar (duas vezes a população da Argentina) e 19,1 milhões em situação grave de estarem efetivamente passando fome, esse é o mesmo número de pessoas que compõem a população total da Grande São Paulo.
Toda essa situação não deve ser surpresa para ninguém, pois há muito temos visto cada vez mais pessoas sem o que comer nas ruas das cidades. Quando o problema da moradia alia-se ao da segurança alimentar, de acordo com os estudiosos e pesquisadores do tema, é sinal de que há muito tempo as coisas não andam bem.
A fragilidade da situação de insegurança alimentar vai aumentando com o tempo, o IBGE divide a insegurança em 3 níveis: insegurança leve, moderada e grave. No caso de insegurança grave é que entra a fome, que muitas vezes vem associada à total falta de meios para manter uma vida digna, levando também à crise de moradia.
Certo é, que no atual estágio do desenvolvimento tecnológico da produção de alimentos no Brasil, não deveria existir nenhuma pessoa passando fome neste país. Sair às ruas e observar pessoas implorando por comida é um absurdo, algo que não deveria existir.
Pior ainda é ver, em meio à maior crise de saúde da humanidade, que as autoridades públicas esperam e aguardam que iniciativas populares façam a sua parte no combate à insegurança alimentar. Os governos municipais e estaduais devem adiantar-se a qualquer iniciativa assistencial da população no que diz respeito ao fornecimento de alimentos, são eles que têm o dever legal de cuidar da população fornecendo adequadamente alimentação necessária à manutenção de uma vida digna às famílias brasileiras sob sua responsabilidade.
Mas, infelizmente, não é isso que se tem visto nas cidades do Brasil ultimamente.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta