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É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve às terças-feiras sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

Afinal, para que serve a literatura?

Venho investindo nisso meu pensamento, como parte de minha profissão de escrevinhadora. Nesse sentido, a frase “a literatura não serve pra nada” sempre me deixa intrigada

Publicado em 23/11/2021 às 02h00
Livros e internet
A verdade é que a arte da literatura não constrói edifícios, não ensina como fazer moqueca, não engorda nem emagrece as pessoas, não tem qualquer outra função pragmática. Crédito: jcomp/Freepik

Ninguém pode dizer que as atuais eleições para a Academia Brasileira de Letras não estão sendo impactantes. O impacto se dá pela escolha de candidatos que, de alguma forma, fogem ao objetivo maior dessa instituição, “o cultivo da língua portuguesa e da literatura brasileira”, como se pode ler no blog oficial da ABL.

Instalou-se a querela. Prós e contras se multiplicaram, com o auxílio das redes sociais, que são o atual fórum de transformação de qualquer assunto em milhares de opiniões, nem sempre fundamentadas nos fatos, mas sempre instigadoras à curiosidade de quem observa o comportamento dos usuários dos meios de comunicação virtuais.

Bem, não vou meter a mão nessa cumbuca. Os imortais votantes é que sabem lá onde lhes aperta o calo dos prestígios e das necessidades. Mesmo porque qualquer coisa que seja dita sobre todo esse imbróglio não vai salvar a pátria literária do desprezo daqueles que acham que a literatura é um luxo dispensável: coisa muito mais daninha que a eleição de alguém para uma academia de letras, seja ela nacional, estadual ou municipal.

Pensar para que serve a literatura, neste século de pandemia aterrorizante, revalidações sociais e múltiplas contradições, me interessa muito mais. Venho investindo nisso meu pensamento, como parte de minha profissão de escrevinhadora. Nesse sentido, a frase “a literatura não serve pra nada” sempre me deixa intrigada. A verdade é que a arte da literatura não constrói edifícios, não ensina como fazer moqueca, não engorda nem emagrece as pessoas, não tem qualquer outra função pragmática. E dizer que a literatura serve para mostrar ao mundo o valor de um povo é relativo e ufanista; achar que a literatura deve invadir outras áreas e assumir funções que não lhe são devidas torna-se partidarismo até mesmo simplório.

Mas as palavras são instáveis, ou melhor, as palavras têm dobra, como ensina Deleuze. Toda criatura que escreve literariamente sabe disso. As palavras têm uma espécie de “terceira margem do rio”, onde elas provocam a indecisão e a incerteza. Assim, a afirmativa “não serve pra nada” pode significar que a literatura não serve para nada daquilo que o senso comum acha de utilidade no mundo. Por exemplo: ganhar dinheiro, ter prestígio, vencer nos negócios, saciar a fome, aniquilar o inimigo etc. Para nada disso, serve mesmo a literatura.

Afinal, ela precisa servir para outra coisa que não seja lançar as pessoas no abismo de si mesmas, cutucar a imaginação, modificar sentimentos, provocar experiências tal como faz a própria vida?

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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