O economista e ex-secretário da Fazenda do Espírito Santo Bruno Funchal assume o comando da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) dentro de 15 dias. Sua nomeação já foi publicada no Diário Oficial nesta quarta-feira (15), mas ele terá duas semanas para realizar a transição.
Mesmo que ainda não tenha sentado definitivamente na cadeira que era ocupada por Mansueto de Almeida, Funchal sabe que vai encarar o maior desafio da sua vida profissional e terá a missão de organizar, juntamente com outros membros da equipe econômica, as destroçadas contas públicas do país. Para este ano, a previsão do Ministério da Economia é que o déficit chegue a R$ 828,6 bilhões.
A coluna já trouxe neste espaço duas análises que dizem respeito à Funchal e ao cargo que ele passa a ocupar no governo federal. A primeira delas foi destacando o perfil do economista e mostrando as características que fizeram o ministro Paulo Guedes a escolhê-lo para o cargo. A segunda abordou como os bons resultados conquistados por Bruno Funchal e Ana Paula Vescovi, quando estiveram à frente da Secretaria da Fazenda do Espírito Santo, contribuíram para que os dois chegassem à chefia da STN.
Hoje, trago a terceira parte, que vai focar nos desafios e nas expectativas que rondam o novo integrante do Tesouro.
PARTE III - O QUE ESPERA POR FUNCHAL
A coluna conversou com diferentes especialistas e fontes e todos foram unânimes em dizer que o trabalho que precisará ser feito por Bruno Funchal vai ser árduo e cheio de pressões. O ex-secretário da Fazenda do Espírito Santo assume o lugar de um dos profissionais mais respeitados do país em contas públicas. Inevitavelmente, isso acaba sendo um desafio, já que a cobrança e as comparações são inevitáveis. Mas olhando pelo lado positivo, Funchal chega com uma diretriz clara e, se seguir a cartilha de Mansueto de Almeida, vai continuar a priorizar, como defendem os analistas, a tomada de decisões pautadas nas análises técnicas e no debate construtivo com os diferentes atores envolvidos. Seguir firme na defesa pela manutenção do teto de gastos é outra grande expectativa formada entorno da gestão de Bruno Funchal.
O que vem pela frente, como classificou o economista e professor Orlando Caliman, é um cenário bélico. “Ele vai enfrentar uma guerra. Imagina administrar o que já está contratado e ainda lidar com o pós-pandemia. Ele terá o desafio da própria retomada, de trabalhar políticas que ajudem a economia a se recuperar no pós-crise e, paralelamente a isso, administrar um déficit enorme.”
Para uma gabaritada fonte da coluna, o novo comandante do Tesouro vai enfrentar um dos momentos mais difíceis da história econômica brasileira, que já vinha ressentida com a crise nos últimos cinco anos e agora se agrava substancialmente com a pandemia do novo coronavírus. “Será o sétimo ano do país com déficit e ele vai ficar ainda mais difícil de ser coberto.”
Diante desse quadro, essa fonte pondera que a interlocução junto ao Congresso terá que ser cada vez mais forte e frequente. Afinal, é do Parlamento de onde saem muitas das demandas da sociedade. “A discussão com o Congresso vai ter que ser muito mais profunda para explicar que não temos condições de fazer frente a novos gastos, e que é preciso reformar as despesas públicas para haver um melhor uso dos recursos.”
Um ex-integrante do governo federal disse que não é fácil negar os pedidos que chegam a todo momento, mas frisou que é possível de forma respeitosa dizer não.
“O que não pode é cair na falácia do ‘tem que fazer’. Por isso, é preciso dialogar e mostrar o porquê as contas públicas não podem ser descuidadas. E outro ponto muito importante que o Bruno Funchal deve ter em mente é que o papel dele nas mesas de negociações tem que ser o de olhar para quem não faz parte delas. Porque uma categoria que nunca está representada é a dos mais pobres. Sempre tem empresários, políticos, sindicatos, grupos x,y,z, mas os mais pobres nunca estão ali. Nosso papel é defendê-los.”
Marcelo Saintive, que já ocupou o cargo de secretário do Tesouro em 2015, considera que o economista é um técnico muito qualificado e vai se sair bem nas interlocuções internas e externas. “O fato dele já fazer parte da equipe econômica permite o alinhamento necessário e crucial com as diretrizes fiscais plantadas pelo então secretário Mansueto. E considerando que o Tesouro Nacional possui um quadro altamente qualificado, a integração tende a ser imediata, o que é providencial num momento de crise sanitária e econômica aguda e sem precedentes. Não temos tempo a perder”, frisou Saintive que hoje é economista-chefe da Findes e diretor-executivo do Ideies.
A economista e professora da Fucape Arilda Teixeira também elogia o novo nome da equipe de Paulo Guedes e diz que Funchal reúne diversas características que o credenciam para conduzir a pasta de maneira exitosa. Segundo ela, além de muito conhecimento técnico, ele tem um perfil voltado para a política de austeridade fiscal e boa capacidade de relacionamento e debate. Ela alerta, entretanto, que o maior desafio dele está dentro do próprio governo.
“Ele se chama Jair Bolsonaro. A maior ameaça ao Funchal é o presidente e a sua trupe dos 30% que o apoiam. Eu espero que Bolsonaro dê espaço para o secretário do Tesouro fazer o que é preciso, que é uma política fiscal eficiente.”