Parecer não é ser. Sabemos que não dá para acender a imagem de um cachimbo. Sim, sabemos, mas esquecemos. Por tolice ou por conveniência, por amor ou pelo ódio, por esperança ou por delírio, humanos demais que somos, permitimos nos deixar capturar pela imagem. É impressionante como passamos anos e anos encolhidos em pequenas fantasias para não dar de cara com o real.
São praticamente duas décadas e meia de jejuns em Copas do Mundo e continuamos arrotando o que não estamos comendo. O brasileiro, sempre muito compreensivo e até permissivo, seguiu perdoando todos os destratos ao longo desses anos. Foi-se o futebol-arte. Ficaram os desmandos de dirigentes citados em esquemas de propina e negociatas que seguem circulando pelos bastidores como se contrato fosse sugestão e não lei; além do abuso de jogadores fanfarrões que usam o futebol como vitrine para faturar com bets, exibir seus brincos de diamante e promover baladas. Ganhar jogo que é bom, nada. Tá todo mundo de cofrinho cheio.
Nossa despedida da Copa de 2026 foi melancólica. Fomos tratorados pela Noruega; voltou Danilo, sozinho. Talvez Ancelotti ainda esteja grudado com chicletes naquele banco. Talvez o resto do time esteja agora curtindo o verão no hemisfério norte. Aqui, do lado debaixo do Equador, faz frio. O futebol brasileiro entregou menos que uma lareira virtual. Foi feio, imaturo, sem geometria, sem paciência e sem garra. Faltou vontade.
Como perdoar a falta de fome de bola no país do futebol, após 24 anos de jejum? Como nos acostumar com esse futebol miúdo, se no nosso inconsciente estão gravados resultados surreais? Chegou a hora de rasgar a fantasia e o verbo. Surreal foi a Bélgica, que vestiu a camisa homenageando o pintor René Magritte e, sem medo de cara feia, assumiu, com humor e sofisticação, que imagem é imagem e o real pode ser outra coisa.
Logo após assistirmos ao Brasil de joelhos, também vimos a Bélgica destronar os Estados Unidos, anfitriões, donos da bola, donos do próprio Mundial. A camisa do time belga, inspirada em Magritte, com a frase bordada na gola: "Ceci n'est pas un maillot" (em português, isto não é uma camisa), deu o recado dentro e fora de campo. Referência direta à obra "A Traição das Imagens", em que o pintor desenhou um cachimbo perfeito e escreveu embaixo "isto não é um cachimbo", a Bélgica mostrou que a imagem do objeto nunca é o objeto.
É, meus amigos, não há como escapar desta realidade. O Brasil amarelou.