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Sextas Crônicas

O jogo é jogado e o lambari é pescado

Precisávamos só de um empate para continuar na Copa, mas Paolo Rossi estava com sangue nos olhos

Publicado em 12 de Junho de 2026 às 04:15

Públicado em 

12 jun 2026 às 04:15
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Eu já narrei um jogo de futebol. Bom, talvez o verbo não seja narrar, digamos que  realizei a audiodescrição de um jogo de Copa do Mundo para uma pessoa que não conseguia mais enxergar a tela da TV. Talvez venha daí minha vontade de traduzir em palavras o que vejo através dos olhos físicos e os da alma.

 

Era um jogo decisivo para o Brasil. Sentada no braço do sofá, meus olhos permaneceram grudados na TV, daquelas enormes, de tubo, o jogo inteiro. 


Minha mente fervilhava e todos os meus neurônios estavam a serviço de entregar a emoção de cada jogada, dos dribles, dos chutes a gol. Eu nem sequer sabia o que era impedimento. Aprendi.

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Desde esse dia, nunca mais esqueci as regras básicas do futebol. Me descobri apaixonada por Sócrates, Falcão e Júnior. 


Desenvolvi em 90 minutos, por amor, gosto por futebol e pela capacidade narrativa. Em todos os lances, eu tentava escolher as palavras que gerassem mais interesse ao outro.

 

O outro, no caso, era o meu avô paterno. Minha memória o guarda como uma referência de amor. Foi ele quem me ensinou a andar a cavalo, a pescar, a diferenciar os cantos dos passarinhos e todas essas coisas grandiosas que gravamos nos nossos arquivos, que jamais serão apagadas.

 

Meu avô amava futebol. O glaucoma, traiçoeiro, em um tempo de poucos costumes preventivos, o impediu de assistir à Copa de 82. Tive que contar para ele a história triste da desclassificação do nosso timaço, conduzido por Telê Santana.

Seleção de 1982: a equipe que encantou o mundo
Seleção de 1982: a equipe que encantou o mundo Acervo CBF

Era julho, foi em Barcelona. A tragédia do estádio de Sarriá ficou conhecida pela incredulidade de um fracasso do futebol-arte. 


Precisávamos só de um empate para continuar na Copa, mas Paolo Rossi estava com sangue nos olhos. O italiano havia saído de um período conturbado, após dois anos de suspensão do futebol. O jogo contra o Brasil foi sua redenção.

 

Meu avô cantou essa bola para mim. Disse que Rossi tinha uma bala de prata e resolveu usá-la naquele dia. Certamente eu não entendi, naquele momento, a profundidade da sua fala, mas mantive a curiosidade sobre essas grandes guinadas que a vida apresenta. Uma pena que a volta por cima daquela arma italiana estava apontada para o Brasil.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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