Estou apaixonada. Esta semana nos encontramos. Há tempos não sentia um arrepio tão longo e intenso, daqueles que percorrem o corpo em uma onda crescente, feito um tsunami. Nunca sabemos o que mexerá com nossas placas tectônicas nesse grau de intensidade. São as águas misteriosas do inconsciente, que sobem a despeito de nós. Águas profundas comandam esse espetáculo no palco de corpos que sentem com a alma.
Tive um encontro memorável com o filme sueco “Meu nome é Agneta”. Foi um abraço bom de permanecer. Que filme cheiroso! O perfume das plantações de lavanda ficou em mim. Está, ainda agora, como o lilás que infiltrou-se nas minhas retinas para tingir meu espírito.
Não quero contar o enredo do filme, a mim interessa conseguir descrever alguns detalhes da cena mais intencional que vi nos últimos meses: a dança de Agneta e Einar. Tudo ali é uma ode à vida, transborda. A cena evoca a libido, essa energia psíquica total, muito além do erótico.
O que Agneta havia perdido, em décadas de vida robótica, não era apenas o sexo. Era o eros fundante. Aquele que alimenta a nossa vontade de querer, de esperar, de sermos surpreendidos pelo próprio corpo. O desejo essencial de que fala o filósofo Frédéric Lenoir.
Einar abre a cena no jardim do casarão habitado por risos, dores, amores e arte. Ele estende a mão para Agneta e a convida para dançar. Sua memória está no corpo. Sua mão estendida é a imagem que se sobrepõe ao discurso. Traz dentro dela o destino irrecusável de seres que se olham e se reconhecem. A linguagem mais antiga da sedução.
A versão em francês de “The Winner Takes It All” poderia ser melancólica, mas não é. As notas caem sobre os corpos que giram em cima de um tapete cheio de histórias. Braços ao alto, câmera e atores envolvidos na mesma dança. É possível ver a mudança de plumagem de Agneta. Seu corpo sendo visto por si. É uma dança de reencontro. Poderia ser uma cena de sexo selvagem, mas não é. Embora o filme também traga isso, a cena é de cumplicidade, devaneio amoroso.
O que acontece nessa dança é o retorno do desejo. Dois invisíveis, arquivados pelo mundo, cada um à sua maneira, girando numa sala que já foi de outra época. Os braços de Einar sustentam o que a solidão havia desequilibrado.
E Agneta, que aprendera a ser pequena, começa a girar em espiral. Evolui. Cresce. O corpo ganha cor, breve preencherá vestidos lilases. A libido, congelada por anos, agora dança.
Bravo, Agneta, tu as gagné.