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Sextas Crônicas

Alerta extremo chega pelo celular: humanize-se

Recebemos uma mensagem incômoda, mas que nos obriga, minimamente, a refletir sobre nós, esse conjunto a que chamamos de humanidade

Publicado em 26 de Junho de 2026 às 04:30

Públicado em 

26 jun 2026 às 04:30
Aurê Aguiar

Colunista

Aurê Aguiar

Fui assistir ao último filme do Spielberg, uma ficção científica que, aqui no Brasil, recebeu o título de Dia D, nada a ver com o desembarque dos aliados na Normandia, durante a Segunda Guerra Mundial. "Disclosure Day", ou o "Dia da Revelação", trata da relação mal-resolvida entre humanos e extraterrestres.


Já saí do cinema com uma enxurrada de conteúdos sobre alienígenas no celular  sabemos bem quem está nos abduzindo. E, antes que eu me esqueça, por favor, delete essa bobagem de que travessão é um símbolo de texto de IA. 


Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa, três escritores geniais da pré-inteligência artificial, usavam o travessão não apenas para iniciar uma fala, mas para o que ele também serve: intercalar, enfatizar algo no texto. Escrita de IA tem “várias camadas".

Tommy Martinez, Emily Blunt e Josh O'Connor em cena de "Disclosure Day"
Tommy Martinez, Emily Blunt e Josh O'Connor em cena de "Disclosure Day" Divulgação/Universal Pictures and Amblin Entertainment

‘Não tema aquilo que você não conhece' é uma frase que eu trouxe do Dia D para esta crônica. O filme tem muitas citações bíblicas. De alguma forma, me lembrei muito do livro "Eram os Deuses Astronautas", do suíço Erich von Däniken, um clássico das teorias sobre extraterrestres e espiritualidade. 


Sem entrar no enredo, porque não é um roteiro muito diferente de outros filmes que tratam do mesmo tema, meu ponto aqui é a curiosidade generosa com o desconhecido, o desejo genuíno de aprender mais sobre a estranheza, antes de julgar e, quase sempre, desprezar ou atacar.

 

Dia D, com competência, aborda a questão da comunicação e seus desdobramentos. O filme explora a fronteira sutil entre manipulação e revelação, entre a voz que se apropriou do microfone e o aviso legítimo. Entre comunicados oficiais e vazamentos surpreendentes.

 

A sombra coletiva não pede permissão para encontrar uma fissura. Ela entra pelo que está mal trancado, uma senha de anos sem troca, um teste ingênuo de “não sou um robô”. E, quando entra, fala uma língua reveladora. Há os que ouvem e aqueles que temem ouvir. 

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Menos de uma semana após a estreia de "Disclosure Day", um alerta geral soou em milhões de celulares no Brasil. Naquela madrugada que perfurou o bloqueio do modo silencioso, a palavra MISANTROPI4, em caixa alta, trouxe um alerta extremo no canal oficial usado, teoricamente, para defender os civis de catástrofes e afins.


O mais perturbador é que todos foram atrás do mensageiro e do canal, mas a mensagem caiu no estranhamento. Uma palavra solta no breu da ignorância: misantropia. Por alguns instantes, o país inteiro foi obrigado a se perguntar o que significava odiar a própria espécie.

 

Recebemos uma mensagem incômoda, mas que nos obriga, minimamente, a refletir sobre nós, esse conjunto a que chamamos de humanidade. A recusa do humano pelo humano, em um grito escrito na madrugada, nos faz pensar sobre a premência de olhar, com coragem e curiosidade, para o ambiente odiento que está escalando entre os seres humanos e suas consequências trágicas. Afinal, alertados fomos todos.

Aurê Aguiar

É jornalista e escritora, escreve quinzenalmente a coluna Sextas Crônicas

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