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Os casos de puberdade precoce que intrigam os médicos em todo o mundo (incluindo no Brasil)

A puberdade precoce consiste no desenvolvimento das funções sexuais em crianças com pouca idade. A condição afeta majoritariamente as meninas e requer tratamento para evitar problemas de saúde na idade adulta.

Publicado em 16 de Agosto de 2026 às 18:34

BBC News Brasil

Publicado em 

16 ago 2026 às 18:34
Imagem BBC Brasil
Agora com 26 anos, Gabby conta que não se lembra muito do início da sua puberdade, pois ela era muito jovem Crédito: Arquivo Pessoal

Gabby menstruou pela primeira vez e desenvolveu pelos no corpo com seis anos de idade.

Sua mãe ficou alarmada com o que a sua filha mais velha estava enfrentando e a levou ao médico.

"A equipe de pediatria precisou pesquisar porque nunca havia visto o que estava acontecendo comigo", conta Gabby, da Inglaterra, para o Serviço Mundial da BBC.

"Eles precisaram consultar outros hospitais pelo país para conseguir mais informações sobre a forma de tratamento."

Gabby tem agora 26 anos. Ela foi diagnosticada com puberdade precoce central (PPC).

Esta condição leva a criança a entrar na puberdade antes dos oito anos de idade, entre as meninas, ou nove anos, nos meninos.

As estimativas do número de pessoas que detêm a condição variam significativamente de um país para o outro. Mas as meninas têm mais probabilidade de serem afetadas.

O número de novos casos em todo o mundo a cada ano varia entre 0,2 e 26 a cada 10 mil meninas e de 0,02 a 0,9 a cada 10 mil meninos.

As pessoas que vivenciam a puberdade precoce não sofrem apenas seus efeitos imediatos, mas também enfrentam maior risco de desenvolver diversos tipos de câncer e doenças cardiovasculares ao longo da vida.

'Eu me senti uma alienígena'

Imagem BBC Brasil
Gabby conta que quer romper o estigma em torno da puberdade precoce Crédito: Arquivo Pessoal

Gabby entrou na puberdade tão jovem que não consegue se lembrar de muita coisa sobre aquela fase. Mas ela relembra momentos dolorosos e perturbadores.

"Tenho recordações de estar em posição fetal no chão, com muitas dores", ela conta.

Depois de cerca de um ano de exames, encaminhamentos para especialistas e uma ressonância magnética do cérebro que não mostrava lesões visíveis que pudessem ter gerado a condição, Gabby recebeu o diagnóstico de puberdade precoce central.

Ela começou a tomar bloqueadores hormonais, conhecidos como agonistas do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH, na sigla em inglês).

"Eu me senti uma alienígena", relembra ela. "Eu fazia todos aqueles exames e tomava injeções a cada três semanas para inibir os meus hormônios."

Imagem BBC Brasil
Gabby conta que parecia mais velha que seus amigos quando era adolescente Crédito: Arquivo Pessoal

As injeções regulares de GnRH suspendem a progressão da puberdade, permitindo que a criança cresça na velocidade normal para a sua idade.

A medicação é normalmente suspensa em algum momento entre os 11 e 12 anos de idade, quando a puberdade começa conforme o habitual.

Os remédios interromperam o desenvolvimento de Gabby, mas ela já tinha passado um ano sofrendo as mudanças corporais típicas da puberdade.

"Realmente, eu não conseguia entender quem eu era quando me olhava no espelho, pois eu parecia mais velha do que me percebia mentalmente", ela conta.

"Acho que isso fez com que eu sentisse que deveria ser mais madura do que provavelmente era para a minha idade."

Quais as causas da puberdade precoce?

Existem dois tipos de puberdade precoce:

  • A puberdade precoce periférica (PPP) ocorre quando os ovários ou testículos começam a liberar hormônios sexuais com muito pouca idade, sem a participação do hipotálamo (a região do cérebro que age como centro de controle dos hormônios corporais). Esta alteração normalmente é causada por uma condição de saúde subjacente, como tumores dos ovários ou testículos, distúrbios adrenais ou exposição a fontes externas de esteroides sexuais.
  • A puberdade precoce central (PPC) ocorre quando o corpo começa a puberdade muito cedo, mas avança conforme o habitual. Esta é a forma mais comum de puberdade precoce e, normalmente, não apresenta causa que possa ser identificada.

Um estudo publicado em 2020 envolvendo 8.596 crianças na Dinamarca, entre 1998 e 2017, encontrou, em média, 9,2 meninas a cada 10 mil e 0,9 meninos a cada 10 mil diagnosticados com PPC todos os anos.

Os pesquisadores também descobriram que a incidência triplicou entre as meninas e dobrou entre os meninos, ao longo daquele período de 20 anos.

Na Coreia, uma análise dos registros nacionais de seguros entre 2008 e 2014 calculou que 26,28 meninas a cada 10 mil apresentaram PPC, contra apenas 0,7 meninos a cada 10 mil.

Os pesquisadores não sabem ao certo por que a PPC atinge desproporcionalmente as meninas. Mas eles afirmam que pode haver uma combinação de fatores biológicos e ambientais.

E esta também pode ser uma indicação de uma mudança maior que leva as meninas a passar pela puberdade mais cedo na população em geral.

A idade média em que as meninas começam a desenvolver seios caiu em cerca de três meses por década entre 1977 e 2013, segundo uma meta-análise de 44 estudos realizada em 2025.

Pesquisas já demonstraram que os meninos também podem estar entrando na puberdade mais cedo, mas, entre eles, a mudança é menos significativa.

Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC

A endocrinologista da Universidade de São Paulo (USP) Ana Pinheiro Machado Canton afirma ter tratado de crianças de até um ano de idade que apresentam a condição.

Nestes casos extremos, a causa mais provável são lesões do hipotálamo. Também se descobriu que tumores cerebrais despertam o início precoce da puberdade.

Canton e seus colegas pesquisadores formularam a hipótese de que podem existir fatores externos em jogo, como a alimentação e o meio ambiente.

"A alta incidência de obesidade em crianças é um fator que precisamos considerar cuidadosamente", explica ela, "pois, quando a criança tem obesidade, a puberdade se acelera."

Já se descobriu que o tecido graxo aumenta os níveis de hormônios sexuais, incluindo estrogênio, além de um hormônio chamado leptina, que ajuda no crescimento do esqueleto. Pesquisadores acreditam que estes hormônios podem despertar a puberdade precoce em algumas crianças.

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A família Bernardi descobriu uma mutação que predispõe suas filhas à puberdade precoce central Crédito: Bruno Bernardi

A genética também pode ser uma das causas.

Em 2013, o trabalho pioneiro da equipe da professora Anna Claudia Latronic e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, identificou que uma mutação em um gene chamado MKRN3, entre outros, pode despertar a puberdade precoce central.

As irmãs Lara, de 10 anos, e Beatriz, de oito, possuem esta mutação. Ela só foi descoberta quando Lara começou a mostrar sinais de desenvolvimento dos seios com pouca idade.

"Fiquei muito assustada com a situação, pois ela tinha apenas cinco anos e 10 meses de idade", relembra sua mãe, Léia Bernardi. "Ela ainda era jovem demais para passar por isso."

Exames genéticos levaram Canton e sua equipe a identificar que a mutação havia sido passada pelo lado do seu pai e que sua irmã mais jovem, Beatriz, com quase total certeza também iria desenvolver PPC.

Com isso, quando ela começou a mostrar sinais de desenvolvimento, aos sete anos, foi possível iniciar imediatamente o tratamento.

"Fiquei muito nervosa, pois parecia que havíamos perdido um pouco da infância delas", conta Léia.

Câncer e riscos cardiovasculares

A puberdade precoce central não tratada traz riscos significativos à saúde mental e física, alerta Canton.

"Imagine uma menina começar a desenvolver seios com seis ou sete anos de idade", explica ela. "Ela passa a ser muito diferente das amigas e de outras meninas com a mesma idade na escola, o que é muito difícil."

Biologicamente falando, as crianças que começam a puberdade cedo apresentam a tendência de atingir pouca estatura.

"Os hormônios sexuais são responsáveis pelo amadurecimento do esqueleto", prossegue Canton. "Por isso, se a puberdade vier mais cedo, o esqueleto amadurece rápido demais e termina mais cedo."

Imagem BBC Brasil
Crédito: BBC

Estudos populacionais maiores também encontraram associação entre o início precoce da puberdade e o aumento do risco de doenças cardiovasculares e câncer relacionado aos hormônios sexuais, como o câncer de mama e do endométrio.

Mas estes riscos podem ser reduzidos com o diagnóstico precoce e intervenções médicas assim que possível, explica Canton.

"Usamos o mesmo tipo de tratamento que temos hoje provavelmente nas últimas três ou quatro décadas e ele é muito eficaz", segundo a endocrinologista.

Imagem BBC Brasil
Beatriz (esq.) e Lara (dir.) continuarão a tomar bloqueadores hormonais até cerca de 11 anos de idade Crédito: Bruno Bernardi

Apesar dos seus receios iniciais, os pais Léia e Bruno Bernardi estão aliviados por verem suas filhas terem uma infância mais normal.

"Quando Lara entrou na puberdade, ela se perguntava por que isso acontecia só com ela", conta Léia.

"Por que ela era diferente? Por que ela precisava tomar aquela medicação?"

Compartilhando sua experiência, eles esperam poder divulgar este conhecimento para outros pais e incentivá-los a buscar auxílio logo no princípio.

Gabby também se dedica a conversar abertamente e usa suas plataformas nas redes sociais para ajudar outras pessoas a sentirem menos vergonha sobre a sua condição.

"Fiquei com um pouco de raiva ao ver como havia pouca informação a respeito", ela conta.

"Quando vi tantas pessoas entrarem em contato comigo, soube que fiz o certo ao contar ao mundo que eu havia passado por isso."

*Com colaboração de Paula Adamo Idoeta

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