Samba bom tem de subir à cabeça, descer pelo coração e desaguar nos pés. Um bom samba tem de ter belos versos. Por isso, louvo os baluartes do samba, que enfrentaram feroz negação do gênero no século passado. E louvo também os jovens que amam o samba.
Para fazer samba, é fundamental ter tamborim, cuíca, pandeiro, surdo, agogô e coro, de preferência feminino. Samba, para ser ainda mais belo, tem de vir embalado em tom menor. Samba quente é o que tem ritmistas de responsa.
Enfim, o suingue do samba tem de ter balanço, como em "Histórias Urbanas" (independente - 2017), álbum do poeta, cantor e compositor Newton Lima. Ele demonstra que o samba está entranhado em sua vida. Todos os arranjos e as músicas, grande parte em tom menor, são de sua autoria.
Para o bom desempenho dos arranjos (dez de Marília Carvalho, um de Daniel Pitanga e outro do próprio Newton Lima, ele que também produziu o álbum), há apenas três ritmistas: Juninho Alvarenga, Paulinho Félix e Valerinho Xavier. O trio soa como se fosse a bateria inteira da Mangueira.
Valerinho Xavier (técnico de gravação e mixagem) e James Castro (masterização) cuidam do som com sabedoria. O resultado é digno dos que curtem a música brasileira em geral, e o samba em particular.
Por falar em dignidade, o coro feminino com Cris Pereira, Clara Nogueira e Marília Carvalho é supimpa. Coisa de profissa.
A flauta (Marília Carvalho) tem destaque em grande parte dos arranjos. Aliás, quando a clarineta (Kaçulinha) e o sax (João Oswald) se ajuntam a ela, a parada é sinistra.
E por falar em profissa, fica claro que assim são George Costa (violão de seis cordas), Vinícius Magalhães (violão de sete), Pedro Molusco (cavaquinho) e Victor Angeleas (bandolim). Dentre outros, chamo atenção para fragmentos de alguns arranjos:
Pressinto que Newton Lima tem em seus sambas uma magia: ter reconhecida sua autoria, graças apenas ao sorriso estampado no rosto de quem os ouve.