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Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

"Um Copo de Veneno", de Cida Moreira, é um álbum alucinante

O piano tem destaque em todas as 11 faixas do disco da cantora, pianista e atriz

Publicado em 16/03/2021 às 17h34
Atualizado em 16/03/2021 às 17h34
Capa do disco
Capa do disco "Um Copo de Veneno", de Cida Moreira. Crédito: Murilo Alvesso/Divulgação

Após múltiplas audições, sigo ouvindo o álbum, só que agora em looping. Isso se dá no exato momento em que começo a escrever sobre "Um Copo de Veneno" (Kuarup), o CD de Cida Moreira. E vêm “Singapura” (Eduardo Dussek) revelando o que Cida tem de melhor: a voz teatral, poderosa, capaz de explodir em provocações vocais e poéticas; e “Avisa” (Tato), revelando o que Cida precisa cantar.

Ela canta como bem sabe e quer músicas como “Private Dancer” (Mark Knoppler). Assim como em todas as 11 faixas do CD, o piano tem destaque – Cida é a pianista que o acaricia enquanto a voz o reverencia. Que duo, meu Deus!

Em “O Verbo e a Verba” (Lenine e Lula Queiroga/Money – Mamonas Assassinas), letra de Queiroga tem em Cida uma intérprete qualificada, para a qual nada é pouco. Tudo é amplidão na natureza de uma cantora que lampeja e verseja no breve instante do queimar a chama de uma vela. Enquanto isso, com falsetes íntegros e afinados, divisões rítmicas ajustadas ao canto e a voz clareando os versos, Cida/piano/voz seguem na atividade.

Cida vai às músicas de alma aberta, dando-lhes densidade dramática. Sua voz parece rouca, mas não é, é harmônica. De fato, ela é uma intérprete com enorme poder de comunicação. Por isso, com seu copo de veneno na mão, ela se encaixa à perfeição num cabaré cenograficamente decadente, frequentado por personagens crepusculares. E em “Efêmera” (Tulipa Ruiz), com o peito e a garganta dilacerados, Cida se dedica a tais personagens com fervorosa consideração.

Em “Prezadíssimos Ouvintes” (Itamar Assumpção), Cida se vale da letra para energizar o que é frieza. Pois, para além de ter nascido para cantar desventuras, ao interpretar Itamar ela vive momento virtuoso, como se desse o derradeiro grito de protesto.

Assim, nascida para a música, Cida Moreira está num patamar onde estão as grandes cantoras brasileiras. E num CD em que tudo o que canta retrata a veracidade da gandaia. Como em “Você Me Vira a Cabeça” (Paulo Sérgio Valle e Chico Roque), quando o piano dialoga com a voz imprimindo um tom lastimoso. Ou também em “Young and Beautiful” (Lana Del Rey, Rick Nowels e Baz Luhrmann), quando a eterna questão da mulher apaixonada por um cara bem mais moço que ela prenuncia lágrimas... o veneno é de cada um.

“Marcha Macia” (Siba) tem o dom de expressar seu mundo inteiro. Ao cantá-lo, Cida se mostra atenta e forte, pois, assim como Siba, ela vive atenta e forte, sem tempo de temer a morte.

É em “La Bala” (Rene Perez, Eduardo Cabra e Rafael Ignacio Arcaut – versão de Murilo Alvesso) que a pianista/cantora é capaz de seguir cantando e tocando horas a fio, mesmo quando a tampa está fechando.

E eu aqui, catatônico, me indagando se tudo é aquilo mesmo que acabei de ouvir... Caramba! Sim! É! É tudo muito intenso, tudo contemporâneo, autêntico e fugaz.

Cida Moreira é toda cantora, toda pianista, toda atriz, toda Av. Paulista e Boca do Lixo, sensível e consciente – enfim, uma mulher profundamente necessária.

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