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Dicas do Aquiles

Com "Labirinto Azul", Ana Lee se mostra uma grande intérprete

Colunista conta como conheceu a cantora e esmiuça o terceiro álbum da carreira da paulista

Publicado em 24 de Novembro de 2020 às 21:07

Públicado em 

24 nov 2020 às 21:07
Aquiles Reis

Colunista

Aquiles Reis

Capa do disco
Capa do disco "Labirinto Azul", de Ana Lee Crédito: Divulgação
A cantora Ana Lee lança agora "Labirinto Azul" (independente), seu terceiro álbum em formato físico e lançado em diversas plataformas.
Eu nunca ouvira falar em Ana Lee. Foi quando a primeira audição me perguntou: que cantora é essa, meu Deus? Que voz diferençada é essa que tanto me agrada? Que arranjos são esses, concebidos com tal beleza que os habilitaria – caso os arranjadores assim desejassem – a virar melodias que, nas mãos de um poeta, ganhariam versos e tornar-se-iam composições de respeito?
Belezas que envolvem melodia, harmonia e a voz, como um cobertor felpudo. Daqueles que despertam a vontade de ficar ali, protegido e aquecido, enquanto a sonoridade, quase sempre grave, nos vêm alma adentro.
Com arranjo de Bráu Mendonça e Ozias Stafuza, “Toada” (Cássio Grava e Zeca Baleiro) traz o som grave do violoncelo de Mario Manga, que se ajunta ao baixo de Paulo Bira, à guitarra portuguesa de Bráu Mendonça e ao violão de Ozias Stafuzza. Juntos, criam um desenho na região grave e, como um mantra, o repetem por inúmeros compassos. Amparada pelas percussões de André Magalhães e Ricardo Stuani, a atmosfera sonora, ouvida nas vozes de Ana Lee e Zeca Baleiro, tira a brasilidade para dançar. Belo início.
Com arranjo de Itamar Vidal e Lula Gama, Ana Lee inicia “Xote da Navegação” (Dominguinhos e Chico Buarque) cantando à capella: “Eu vejo aquele rio a deslizar/ O tempo a atravessar meu vilarejo (...). E logo vem o fagote de Luís Antonio Ramoska a imprimir no arranjo um clima de opulenta sabedoria. Energia engrandecida pelo som do clarone de Itamar Vidal, do violão de sete cordas de Lula Gama e das percussões de André Magalhães. Certamente, Ana encara com carinho que é chegada, enfim, a hora de se afirmar como uma grande intérprete: afinada, com bom sentido rítmico, sabendo o que canta e dando aos versos sentida emoção.
Com arranjo de Swami Junior, “Meia-Noite”, a linda canção de Edu Lobo e Chico Buarque, vem apenas com as cordas dos violões de seis e do requinto, além do baixo fretless de Swami. Em melódica introdução e num intermezzo arrebatador, as cordas conclamam Lee a soltar a voz. Sem gabolice, ela não nega fogo.
Outra bela canção é “Labirinto Azul” (que titula o álbum), de Lincoln Antonio e Walter Garcia. É quando se vê que os agudos de Lee são como seus graves, afinados e incontestáveis. Ela vem acompanhada apenas pelo piano de Lincoln Antonio – e pra que mais? –, e se entrega à canção para, sem dúvida, derreter as almas fugidias.
Antonio Herci musicou o poema “O Amor É Uma Droga Pesada”, de Maria Rita Kehl. Com percussões de Ricardo Stuani e André Magalhães, e com Lee dobrando a própria voz, os versos finais traduzem o carisma da poetisa e da cantora: “(...) O amor é uma droga pesada/ E eu uma velhíssima mulher/ Gozando pela milésima vez/ A viagem infernal”.
E eu, que não a conhecia, tornei-me seu fã. Ana Lee há de ter um espaço para chamar de seu no mundo da música.

Aquiles Reis

Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

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