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Aquiles Reis é músico e vocalista do MPB4. Nascido em Niterói, em 1948, viu a música correr em suas veias em 1965, quando o grupo se profissionalizou. Há quinze anos Aquiles passou a escrever sobre música em jornais. Neste mesmo período, lançou o livro "O Gogó de Aquiles" (Editora A Girafa)

Bia Góes demonstra a sabedoria do cantar em "Nosso Chão"

São oito composições vitais, cujo conteúdo revela amor à vida. Seja nos versos, seja nos arranjos ou no ato de cantar, a religiosidade pulsa no disco

Publicado em 27/04/2021 às 19h08
Capa do disco
Capa do disco "Nosso Chão", de Bia Góes. Crédito: Divulgação

Hoje conversaremos sobre "Nosso Chão" (independente), o terceiro álbum da cantora e compositora Bia Góes, que chega ao mercado no dia 7 de maio. Repletas de imagens poéticas, suas composições revelam o seu caráter e a originalidade de sua música. O que sentimos ao ouvi-la é que ali está um louvor à força do ofício de criar e cantar, e uma sagração à postura diante do chão do ser, lá onde pisa a humanidade.

São oito composições vitais, cujo conteúdo revela amor à vida. As veias, que pulsam na mãe terra, carecem de ritmos inusuais: ijexá, jinká, congo de ouro, xote, carimbó, samba chula e capoeira. Canções autorais, de domínio público e de outros compositores, como Peri, Douglas Germano e do vibrafonista Ricardo Valverde, músico que o reverencia e propala o som extraordinário de seu instrumento e que assumiu a direção musical do CD, ali expondo as suas referências musicais, religiosas, musicais e estéticas.

O fundo do álbum é o sincretismo religioso e musical afro-brasileiro, o que enobrece o conteúdo existencial do trabalho de Bia. Graças à solidez de seu papel de cantora, compositora e cidadã, Bia trouxe o mestre Griôt Sr. Carlos de Assumpção para participar da música "Domingo" (Bia Góes), o que ele faz declamando um trecho de sua poesia "Raízes". "Domingo" é a mais bela interpretação e empolgante criação de Bia. Meu Deus do céu, o que é aquilo?

O coro do grupo de cultura popular Kyloatala, em “Guaracyewaba”, canta em bantu, usando palavras do kimbundo e do kikongo, dialetos do reino Ndongo de Angola; músicas que no Brasil são cantadas no candomblé da nação Angola. A intro é com o contrabaixo fretless. Arritmo, arranjo apresenta Bia ao fretless. O ritmo vem e os pelos arrepiam. Também cantando em bantu, chega a hora de Bia se ajuntar ao coro. Ajuntadas, as palmas marcam o tempo forte com o tambor. Juntos todos cantam: “Bandeira branca trago de um pai forte/ Trago no peito uma estrela brilhante/ O Deus vos salve essa casa santa/ Com sua espada e seus guerreiros”. Chão total. E os pelos seguem arrepiados.

O cantor e compositor Filó Machado participa cantando em “Moçambique” (Ricardo Valverde e Douglas Germano). O arranjo tem início com vocalises de Bia. O vibrafone e a batera mantêm a levada. O samba vem cadenciado. Logo quem faz vocalises é Filó Machado. O suingue emana no ritmo das palmas. Bia e Filó cantam em duo e com vocalises finalizam.

Seja nos versos, seja nos arranjos ou no ato de cantar, a religiosidade pulsa em "Nosso Chão". É quando a diversidade rítmica se mostra ajustada à terra em que humildemente pisamos.

Da liturgia do tributo ao êxtase da fé, surge um palmo da terra do chão, o solo em que habita a voz afinada e intensa da criadora Bia Góes.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta

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