Os novos prefeitos eleitos assumem com déficit de legitimidade, grandes limitações fiscais e desafios sanitários e reduzida capacidade de liderar as suas cidades. Vão precisar de visão estratégica para enfrentar novo contexto e espírito de época - e de visão empreendedora para ter capacidade de entrega. Felizmente, a média das campanhas eleitorais se concentrou em temas locais de zeladoria e, portanto, não foi muito ativado o “modo promessas”. Isto é um preventivo contra choques de estelionatos eleitorais.
O déficit de legitimidade é significativo. Na mediana dos resultados dos dois turnos, a alienação eleitoral atingiu 1/3 do eleitorado no
Estado. O não voto é o sentimento de antipolítica. Gente dizendo: “ninguém me representa”. Na
Grande Vitória, todos os quatro prefeitos eleitos em segundo turno têm déficit de legitimidade. Paira a imanência da ingovernabilidade. Também porque o Poder Local perdeu capacidade relativa de ser Poder Local. Os prefeitos têm novos contextos e obstáculos para liderar as suas cidades.
Isto remete para as limitações fiscais e sanitárias. Requer energia de gestão e concepções inovadoras sobre a vocação metropolitana e mundial das cidades. E sobre o papel das cidades no desenvolvimento sustentável e no enfrentamento da crise sanitária – o que inclui a aplicação da vacina. Só pela melhoria da capacidade de entregas advirá a recuperação da legitimidade do Poder Local.
Buscar formas compartilhadas de gestão – consórcios, parcerias, soluções digitais. E ferramentas de gestão alternativa de políticas: reuso de água; energia solar nas escolas e prédios públicos; tecnologia digital na prestação dos serviços; economia criativa; e pedágio urbano, por exemplo. Governança compartilhada na Região Metropolitana da Grande Vitória.
No século XXI, o poder local não é mais a prefeitura. O poder mudou. Está em movimento um novo arcabouço de governança, com formato multissetorial e em rede. Um novo localismo que se expande para além das “fronteiras” dos tradicionais governos locais (as prefeituras, no caso brasileiro). A governança como confluência de iniciativas e esforços coletivos da sociedade civil, do governo e da iniciativa privada.
Nem as cidades são mais meras unidades políticas subordinadas ao Poder Central ou à Nação, nem as prefeituras são mais os centros do poder local. No mundo dos fluxos, o novo localismo é uma rede complexa (virtual e real) de iniciativas cívicas, privadas, governamentais que movimentam uma nova energia empreendedora da sociedade.
Energia e sinergia capitaneadas pelas cidades primazes e capitais, se espraiando pela rede (nacional e mundial) de cidades. Basta olhar o exemplo da gestão e do convívio com a
pandemia. No microcosmo brasileiro, esta realidade nos remete para a repactuação do federalismo brasileiro.