O Grupo Energisa anunciou investimentos de R$ 100 milhões em 2024 para a expansão da rede de distribuição de gás natural no Espírito Santo. Ao mesmo tempo, a Cesan anunciou o programa de R$ 7,5 bilhões em PPPs de esgoto para 2024, englobando 43 municípios.
Boas notícias. São investimentos que ampliam as possibilidades do Estado ganhar tração endógena em seu processo de desenvolvimento. Superando, aos poucos, a sua excessiva dependência de investimentos exógenos, sempre apontados como uma fragilidade regional.
Nos anos 1970, acompanhando diagnóstico de Lélio Rodrigues, chamei atenção para o problema ao criar o neologismo “desautonomia relativa”: naquela toada de investimentos exógenos dos chamados grande projetos (Vale, Petrobras e outros), o Espírito Santo poderia virar colônia estrangeira ou território federal. Excessiva dependência.
Com efeito, ainda em 2023, o PIB do ES cresceu 5,7%, impulsionado pela indústria extrativa (+20,5%). Esses 20,5% compreendem principalmente as áreas de petróleo e mineração. A economia do petróleo e das commodities. O setor da indústria de transformação (manufaturas) teve retração (-3,6%).
Agora, o gás tem efeito multiplicador e força motriz na modernização sustentável da indústria de transformação, na trilha da chamada neoindustrialização. A ArcelorMittal tubarão contratou 260 metros cúbicos/dia no ano passado, utilizando a rede da ES Gás.
Está em curso uma política endógena de aumento do consumo do gás na indústria, em vários setores: siderurgia, fertilizantes, cerâmica, metanol e outras. Na indústria, o gás natural é fonte de energia mais barata que a elétrica, em processo de geração de calor, por exemplo. E também em processos químicos. O gás não é apenas matéria-prima. É indutor de crescimento da economia e geração de empregos.
O saneamento é também uma fonte endógena de crescimento. Uma área de investimentos que geram externalidades e efeitos multiplicadores. Vale enumerar as externalidades já clássicas na área: diminuição dos custos de saúde e de doenças; melhoria da produtividade dos trabalhadores; valorização imobiliária nas áreas com saneamento; novas receitas das operações da cadeia produtiva de água e esgoto; maior renda de turismo; e a renda direta e indireta gerada pelos investimentos.
Se forem somados os investimentos programados pela Cesan para 2024/2026 e se forem, ainda, considerados os investimentos potenciais em PPPs dos 34 municípios que têm serviços autônomos de água e esgoto (SAAEs), serão robustos os efeitos motrizes.
Só como referência, estudo feito pela CNI estimou que R$ 3,8 bilhões de investimentos em saneamento gerariam 221 mil postos de trabalho, em construção civil e em indústria de máquinas e equipamentos. Para o Instituto Terra, cada bilhão investido em saneamento gera 10 mil empregos apenas em obras.
Além das áreas de gás e saneamento, as operações do Fundo Soberano do ES em inovação e em alavancagem de investimentos produtivos também têm efeitos de tração endógena na economia.
Com mais de R$ 1 bilhão já disponível, o Fundo pode alavancar perto de R$ 3 bilhões em novos investimentos produtivos. Seja em formato de “equity” em FIPs (Fundos de Investimentos em Participações), seja em formato de indução de investimentos específicos com efeitos multiplicadores em infraestrutura.
Tudo somado, caso tenha também mais ousadia na viabilização de novos investimentos na área de turismo, outra que induz tração endógena, o governo estadual capixaba poderá catalisar novos vetores e novo perfil para a economia capixaba.
A meta é mitigar a dependência relativa da economia do petróleo e, ao mesmo tempo, da economia de exportação de commodities. E gerar força endógena até 2033, quando terminar o ciclo dos incentivos fiscais capixabas.