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Política

O 'Leviatã' e o 'Capital': a máquina estatal e a máquina capitalista

Eis a condição moderna: o Estado nos faz vulneráveis ao poder da máquina. Ele nos serve e nós o servimos. Humano e mecânico

Públicado em 

24 fev 2024 às 01:40
Antônio Carlos Medeiros

Colunista

Antônio Carlos Medeiros

Fenômenos das Ciências Sociais. Em pleno século XXI, o “Leviatã” (1651), de Thomas Hobbes, e o “Manifesto do Partido Comunista” (1848), de Marx e Engels, permanecem prescientes e persuasivos. A essas obras se somam os três volumes de “O Capital”, de Marx (1867 e depois).
O Estado Moderno continua com a mesma concepção da máquina estatal hobbesiana. E a acumulação de capital contém a mesma concepção marxista da máquina de funcionamento do capitalismo. Ambos, o Estado e o capitalismo, são duas máquinas que se retroalimentam, em sintonia, sinergia e em equilíbrio instável e dinâmico.
Essa é a conclusão de um recente livro seminal de David Runciman, da Universidade de Cambridge, Inglaterra: “Confrontando o Leviatã - Uma história do pensamento político moderno”. Nessa obra, Runciman navega em resenhas das vidas e obras de cientistas sociais proeminentes. De Hobbes a Fukuyama, passando por Mary Wollstonecraft; Benjamin Constant; Tocqueville; Marx e Engels; Gandhi; Weber; Hayek; Hannah Arendt; e Catharine MacKinnon.
Runciman mostra que o Leviatã é máquina e o capitalismo é máquina. São “autômatos gigantes” com vida própria. As duas forças – a política e a econômica – conformam o Estado moderno e o capitalismo moderno. São instrumentos que ninguém consegue controlar totalmente, mas ambas são essenciais, diz ele.
Hobbes concebeu o Estado como síntese dialética de povo e governo, em mútua dependência. Para superar o conflito do “homem lobo do homem”, evitando a “guerra de todos contra todos”. A produção da síntese vem do encontro das ideias do “soberano” e da “representação”. O soberano (um termo neutro para Hobbes) governa. O povo delega, via representação. Essa é a essência da concepção.
Mas a chave da concepção é a ideia de que ao soberano é concedido o monopólio legítimo do uso da força. O uso da força represa e contém a tendência natural ao conflito. A unidade da delegação ao representante confere legitimidade ao soberano.
Pronto. O artifício constrói uma máquina mecânica e interdependente (soberano e povo). Um acordo político. Sem a política é o caos. A máquina se movimenta para engendrar equilíbrio instável e dinâmico entre paz e terror. Uma máquina artificial, reitera Runciman.
“Apesar da distância no tempo, continuamos a habitar o mundo político de Hobbes”. Ao soberano, o poder da força e a capacidade de proporcionar paz: “fiador da estabilidade e artífice do terror (...) conforto e medo”.
Continua sendo essa a tarefa dos poderes soberanos nos Estados modernos, conclui Runciman.
Passando para a exegese da máquina de funcionamento do capitalismo, com base no “Manifesto” e no “Capital”, ele vai ao cerne da concepção: “Uma das características do capitalismo, um dos seus inevitáveis aspectos cíclicos, é que ele segue entrando em crise. Uma crise após outra é causada pelo fato de que o capitalismo tem mais poder do que as pessoas que o administram são capazes de controlar”.
Como corolário, segue ele, “o que acontece regularmente nas sociedades capitalistas é um ciclo vicioso”. Ou seja, ciclos de superprodução e ciclos de subconsumo. Crises de oferta e crises de demanda.
Vem daí que “as soluções dependem do poder coercitivo do Estado, para manter a ordem interna”. Ou da busca de outros mercados, daí a internacionalização/globalização.
A ideia marxista que permaneceu recorrente é a ideia de crise e de sua relação com o funcionamento das engrenagens da máquina capitalista. “O capitalismo tem um poder mágico que não poder ser controlado pelas pessoas que o administram (...) – quando o truque da mágica dá errado, os capitalistas recorrem a novos mercados e/ou pedem ajuda ao Estado (...)".
Karl Marx
O pensador alemão Karl Marx, autor de "O Capital" Crédito: Reprodução
Até aqui, as crises recorrentes do capitalismo, com suas formas “naturais”, têm sido controladas ou superadas pelo Estado hobbesiano, veículo de força e emancipação, diz Runciman.
O Leviatã é máquina, o capitalismo é máquina. Seguimos num mundo hobbesiano, agora com o Estado coexistindo com as Big Techs, que produzem as máquinas pensantes.
Eis a condição moderna: o Estado nos faz vulneráveis ao poder da máquina. Ele nos serve e nós o servimos, provoca Runciman. Humano e mecânico.
Para onde vamos?

Antônio Carlos Medeiros

É pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science. Neste espaço, aos sábados, traz reflexões sobre a política e a economia e aponta os possíveis caminhos para avanços possíveis nessas áreas

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