O padrão se repete regularmente nas épocas de verão. Conhecidos ou amigos meus da Europa ou de outros estados brasileiros visitam o Espírito Santo e ficam gratamente surpresos com as belezas, tanto ao longo da costa, quanto nas montanhas.
Mas aí vêm (sempre) as perguntas e as dúvidas deles. Por que vocês não têm bons resorts espalhados pela bela costa e a bela região de montanha? Por que os taxistas, o pessoal do Uber e o pessoal dos bares e restaurantes não atuam como “guias turísticos informais”, como na Bahia e no Rio de Janeiro, informando os turistas sobre a culinária e os pontos turísticos? Por que a segurança nas praias não está boa? Por quê?
Ou seja, tem sempre um “porém”. Daí, a minha insistência com o tema.
Outro dia, no ano passado, o governador Renato Casagrande chamou a atenção dos capixabas para a necessidade de “fortalecer de forma intensa o turismo”, em decorrência da nova reforma tributária, já aprovada.
Agora, como se sabe, os impostos dos produtos serão pagos no lugar em que forem consumidos, e não mais no lugar em que foram produzidos. Assim, a receita será maior nos lugares em que houver mais consumo. Por isso, o Espírito Santo precisa fortalecer o turismo, para ampliar o consumo. A prioridade para o turismo, já afirmei aqui, se torna uma questão de Estado, e não de governo. Ainda mais porque até 2033 a reforma vai extinguir os incentivos fiscais capixabas.
Em 2023, foi dado um primeiro passo para transformar o turismo em Agenda de Estado. Um novo arranjo institucional de governança, que ainda está em curso. A Câmara Estadual de Turismo, apoiada pelo governo estadual e integrada por entidades privadas, com a liderança da Fecomércio, está em ação.
Mas ainda é pouco. O turismo é essencialmente uma iniciativa privada, de sociedade, mas precisa de indução pública. Tanto as iniciativas privadas, quanto a indução pública, ainda são incipientes. A começar pelo incipiente volume de investimentos.
O turismo precisa ser parte da visão moderna da chamada neoindustrialização. O turismo é uma iniciativa verde, a indústria sem chaminé. A indústria do turismo. A neoindustrialização, visão que se espalha pela China, pela Ásia, pela Europa e pelos Estados Unidos, está sendo adotada no Brasil. Precisa ser adotada no Espírito Santo também. Com o turismo incluído.
Na trilha da nova visão de desenvolvimento econômico, de Mariana Mazzucato, do UCL (University College London). Sua ideia central chegou ao Brasil.
É a ideia de que as políticas públicas precisam conter o conceito de missão – a missão sendo a indução dos efeitos multiplicadores da política pública no tecido econômico e social. A ideia de neoindustrialização contém e embarca o conceito de missão, na direção da economia verde, da inovação e da produtividade.
Pois bem. Leio que o governo estadual, com a ONG ES em Ação, está lançando o “ES 500 anos”. Trata-se de um bem vindo planejamento de longo prazo (até 2035) para o ES. Em 2035, o Estado comemora 500 anos de colonização.
É preciso embarcar o turismo neste projeto de longo prazo. Embarcar como missão e como agenda de Estado. O que inclui um projeto bem estruturado de construção de uma cultura de turismo no Estado. A geografia e a natureza privilegiam o Espírito Santo. Mas é preciso superar o nosso complexo de vira-lata nessa área.
Nessa direção cultural, a Rede Gazeta já faz um bom trabalho, com “os capixabas”. Mas é preciso muito mais. É preciso melhorar a comunicação do ES com o Brasil e com o mundo.
Num horizonte de nove anos, até o final dos incentivos fiscais em 2033, a missão é fortalecer a vocação do ES para o setor serviços, entendido em sua concepção transversal e em sua capacidade multiplicadora de consumo, geração de riqueza social e bem-estar. Em suma, neoindustrialização-com-turismo.