O Observatório Febraban (da Federação Brasileira de Bancos), um estudo mensal que mapeia a visão da população sobre questões de alta relevância, mostra centelhas de otimismo em relação ao amanhã da economia. Quase a metade (49%) dos entrevistados acredita que em até um ano as suas finanças voltarão ao nível de antes da pandemia. Destes, 21% não descartam a possibilidade de a recuperação ocorrer antes de um ano. Poxa! Todo mudo quer saber como. Que tal esse povo dar consultoria? Teria filas maiores do que aquelas para receber auxílio emergencial do governo.
Claro que a outra face da laranja (51%) não vê possibilidade de recuperação antes de um ano. Esta linha de pensamento se encaixa ao discurso de várias consultorias que desde já enxergam do PIB de 2021 sendo danificado. Argumentam que vários efeitos da queda drástica em 2020 certamente se prolongarão no próximo a ano, e até nos seguintes.
Sob o ponto de vista fiscal, não há dúvida de que isso acontecerá. Com o novo coronavírus, o déficit primário (que exclui o pagamento da dívida) nas contas públicas (União, Estados, municípios e empresas estatais) pode chegar a R$ 700 bilhões neste ano - o maior em 19 anos, desde quando começou a série histórica.
Há uma curiosa divisão de ideias. Veja: uma nota técnica divulgada pelo Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp afirma que o distanciamento social, adotado em função da pandemia, não pode ser responsabilizado pela retração do PIB. Apenas agravou. A explicação é de que já havia uma desaceleração em curso, mostrada por vários indicadores, desde o segundo semestre de 2019, e que foi acentuada no último trimestre do ano.
O declínio continuou em 2020, a ponto de o setor de serviços, que responde por 74% do PIB, ter recuado 1% em fevereiro - mês marcado por férias e carnaval, portanto, tradicionalmente bom para as empresas do ramo. No Espírito Santo, o dinamismo vinha mostrando redução desde julho, com queda de 0,52%, de acordo com o índice de atividade econômica (IBCR-ES) apurado pelo Banco Central.
A mesma nota da Unicamp ressalta que são justamente as políticas públicas para a contenção do contágio que irão facilitar uma recuperação mais rápida de muitas atividades. Aí, há também polêmica. O Brasil foi o único país onde se realizaram carreatas cobrando a reabertura de lojas em pleno período de avanço do vírus. Pressão é maior do que em outros lugares porque aqui as empresas pagam mais impostos do que em qualquer outro país. Sem geração de caixa, a situação ficou dramática. Refis e mais refis serão apenas paliativos.
O Observatório Febraban baseia-se em levantamento feito dos dias 1º a 3 deste mês pelo Instituto de Pesquisas Políticas, Sociais e Econômicas (Ipespe). A amostra reuniu mil pessoas de todas as regiões do país, representando a população adulta bancarizada. Vale lembrar que no Brasil existe um enorme contingente de cidadãos desbancarizados. Cerca de 20 milhões sem conta já resgataram o auxílio mensal de R$ 600.
Outra observação cabível, é que possivelmente deve haver muitos investidores endinheirados entre as pessoas que esperam recuperar em um ano, ou antes, as perdas acumuladas na recessão atual. Talvez, estes otimistas tenham forte participação em um fato surpreendente: em 30 dias corridos, entre 11 de maio e 10 de junho, a bolsa de ações brasileira teve a maior alta entre os principais pregões do mundo. O Brasil não é um país para principiantes.