No Brasil, uma mulher é estuprada a cada oito minutos. Sabe quantas mereceram? Nenhuma. Nem as de saia curta ou blusa decotada nem as que andavam por uma rua pouco movimentada nem as que saíam de um bar sozinhas. Por mais que ainda haja gente para dizer o contrário, nenhuma mulher merece ser estuprada. Nenhuma.
Ainda há o que se explicar no caso. Até o momento em que escrevo este texto (quarta-feira à noite, Joe Biden em vantagem na confusa eleição dos Estados Unidos, 622 mortes por Covid-19 no Brasil nas últimas 24 horas, meu gato na janela zepovinhando o que se passa na praça da igreja),
não sabemos se o vídeo em que o advogado agride Mariana Ferrer foi realmente editado de forma a retirar trechos em que o promotor e o juiz interferem contra os excessos.
Não sabemos de onde surgiu a expressão “estupro culposo”, divulgada na primeira reportagem sobre o tema e amplamente reproduzida, mas que não aparece na sentença. Nem tampouco sabemos o quanto o machismo latente naquela sala de julgamento interferiu no veredito - inocente - dedicado ao empresário acusado de estupro.
O que sabemos é que culturas e percepções são construídas com o tempo. O costume é a força que fala mais alto do que natureza, já dizia o sábio Noel Rosa. E não é de hoje que muitos homens, deitados no esplêndido berço do machismo estrutural, não fazem ideia do que significa passar do ponto.
Que o diga o jogador de futebol, temente a Deus e tudo, achando graça da falta de consciência da jovem que ele “não estuprou”, apenas colocou em sua boca vocês sabem quem, embora ela estivesse - palavras dele - “completamente bêbada” e “sem saber o que estava acontecendo”.
A imagem de Mariana Ferrer, pedindo respeito, numa sala ocupada apenas por homens, depois de ter fotos íntimas expostas e de ser acusada de usar a situação para se promover, é de entristecer qualquer dia. Mesmo que o sujeito que ela acusa tenha sido inocentado pela Justiça, certas palavras não se reinventam ou mudam de significado dependendo do contexto. Estupro é uma delas.