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Brincadeiras

Uma lembrança do tempo em que a garotada fazia seus próprios brinquedos

Nem imagino de onde saiu esse desejo do meu neto de ter uma seta, um bodoque, daqueles que as crianças de antigamente usavam para brincar atirando bagas de mamona

Públicado em 

08 jan 2021 às 06:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Criança brincando em casa
Criança brincando em casa Crédito: Pixabay
Cá estou eu às voltas com um pedido de Biel, meu neto de sete anos. Nem imagino de onde saiu esse desejo dele de ter uma seta, um bodoque, daqueles que as crianças de antigamente usavam para brincar atirando bagas de mamona e, os meninos mais velhos, para caçar passarinhos no alto dos morros, depois de produzir a própria munição. Passávamos horas enrolando pelotas de barro do tamanho de bola de gude, que depois secávamos numa chapa de ferro com fogo embaixo.
Doda, o caçula dos seis filhos de Bebeta e Seu Jorge, adoráveis agregados de papai e mamãe, era um exímio usuário de seta. Dono de pontaria invejável, ele acertava com facilidade rolinha pousada na ponta de um esteio e anu-branco se equilibrando num fio de baixa tensão. Caçar passarinho era programa frequente quando a gente ia passar uns dias em Cachoeiro.
Naquele tempo, a garotada fazia seus próprios brinquedos: botão de coco pra jogar futebol de mesa, pipas com papel de seda e rabiolas de pano, vara de pescar, carrinho de rolimã. Até hoje uso muito do que aprendi menino pra dengar neto.
Pra começar o serviço, precisei arranjar um bom gancho de seta, que fosse adequado para um menino canhoto. A firmeza é a alma da segurança e da pontaria. A forquilha deve permitir a passagem da pedra com folga e o cabo tem que oferecer pega cômoda e bem firme, com os três dedos pressionando a madeira contra a palma da mão. O polegar e o fura bolo são usados para controlar a angulação da forquilha, indispensável à precisão da mira.
Cortei com dó um galho da nossa fertilíssima goiabeira, para aproveitar uma bifurcação jeitosa que estava mais perto do chão. As tiras de borracha serão cortadas de uma velha câmara de ar de bicicleta e o porta pelota será feito de couro branco. Nas amarrações, usarei fio de tucum feito por índio.
Os dois elásticos, fixados nas pontas do Y e numa tira de couro, lugar da munição, deverão ser esticados com algum esforço com o braço se afastando do corpo e a mão sendo trazida para perto do olho de pontaria. Os movimentos de esticar os elásticos devem ser contínuos e precisos, de modo que a mira vá sendo calibrada durante o processo. É pá, pou! Nada de ficar mirando o alvo com os braços estirados, que começam a tremer.
A produção de pelotas será intensa nos próximos dias. Vou arranjar barro com uma amiga que acaba de virar ceramista. O problema vai ser ensinar o moleque a atirar pelotas na direção certa. Afoito que é, corre o risco de acertar cabeça de irmão e vidro de janela na vizinhança. Por precaução, vou fazer um alvo de madeira e pedir que Manu pinte direitinho.
Enquanto isso, o presidente da nação, talvez ciente do que esteja vindo por aí, intensifica a falação de abobrinhas disfarçantes, ao tempo que o seu colega do Norte perde de vez a compostura e o respeito.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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