Devo dizer, sem ao menos corar, que senti uma inveja boa ao assistir à festa de comemoração dos resultados da eleição nos USA, realizada num palanque iluminado e protegido por vidro contra tiros, na cidade natal do presidente eleito. Um acontecimento muito alegre, eminentemente familiar, restrito à participação dos respectivos cônjuges e dos filhos, netos, genros e noras dos eleitos e eventuais agregados. Boa parte da inveja foi por conta das caras sorridentes, leves e amistosas. Não identifiquei ninguém com jeitão de bandido de origem, de malandro na espreita, de mocinho falcatrua e de mocinha periguete.
Gostei sobretudo do sorriso largo e do jeito franco de mulher positiva da senadora Harris. Depois de vê-la comemorando a vitória, li com atenção redobrada um release sobre suas origens, incluindo as atitudes e os valores de seus pais, que foram, ainda adolescentes, estudar nos USA por convicções pessoais. Posso estar redondamente enganado, mas fiquei com a impressão de que ela vai chegar à presidência do país, seja em substituição ao titular ou eleita, nas eleições de 2024.
Também gostei do discurso do presidente eleito. A serenidade e a firmeza de suas palavras abrem espaço para convergências consistentes em torno de questões graves, de repercussão no futuro do país e de alhures. Me pareceu que elas foram ditas com sinceridade, atestando a serenidade e a determinação de um homem público muito experiente.
Também assisti à figura patética e arrogante de um canastrão posando de poderoso, incitando seus seguidores a não aceitarem os resultados das urnas. Tudo para juntar gente para sustentar jogadas políticas posteriores. Ao que tudo indica, esse teatro profissional só terminará com a posse do novo presidente, em fins de janeiro.
Por aqui, vejo o Itamaraty e o Planalto sem saber o que fazer para disfarçar a encrenca em que se meteram ao não reconhecer a derrota do topetudo lá de cima, da qual, forçosamente, vão ter que sair. Sob a crescente pressão do tempo, quanto mais se esquivarem de enfrentar a realidade dos fatos, pior será para seus respectivos mandatários. Sabe-se que apenas um deles é demissível com caneta bic.
Sem querer rogar praga, acredito que os resultados das nossas eleições, no domingo, vão tirar mais um pouco de terra do chão do chefe e jogar para dentro dos seus sapatos. O incômodo deverá aumentar ainda mais sua irritação e sua insegurança, e acelerar a produção de rompantes desvairados e altamente desgastantes. Sempre na linha do tiro de pólvora seca que deu no pé pra comemorar uma falsa vitória na peleja contra a vacina inimiga.
Tudo isso com o Centrão achando bom e pouco, querendo muito mais. Nesta altura do campeonato, a novidade é a turma das beiradas se assanhando com as oportunidades que vão surgindo de graça e já ensaiando botar as garras pra fora. Quem viver, rirá.