A chegada de um vento sul em Vitória sempre foi prenúncio de uma chuva contínua e acompanhada de alguma friagem e muita umidade. Pra muita gente é sempre motivo de transtornos e incômodos, seja por falta de agasalho, seja na movimentação de um lugar para outro, a pé ou de bicicleta. No final dos anos 1960, muito pouca gente tinha carro pra circular pela cidade, o bonde já não existia, os ônibus eram bem poucos e só rodavam pelas avenidas e ruas principais.
Por provocar dias de recolhimento forçado e gerar eventuais melancolias, temas constantes dos escritos de Carmélia de Souza, o vento sul me faz lembrar da minha querida cronista, que hoje desfruta das vantagens do céu ou do inferno ao lado de muita gente boa que partiu daqui.
Imagino que ela possa estar abismada com as mudanças que a sua cidade experimentou nas últimas décadas, meio sem saber o que fazer com o slogan "esta ilha é uma delícia”, meio debochado e cheio de ironia, que cravou para a Vitória de seu tempo.
Para uns poucos, abnegados como eu, que mergulhavam ao redor das ilhas do Boi, do Frade e nas pedras de Ponta Formosa em busca de lagostas, a chegada do vento sul era sempre muito bem vinda, festejada até. Era garantia de contar com uns poucos dias de água do mar transparente, condição indispensável para que a gente enxergasse suas antenas mais de longe e com maior facilidade.
Devo dizer que estou estranhando essa sucessão de temporadas de vento sul por estas bandas. Nos últimos meses foram muitas as frentes frias que chegaram por aqui, trazendo chuvas e baixas temperaturas, inclusive neste começo de dezembro. Pode ser bobagem minha, mas acho que elas devem ser mais uma expressão do desarranjo climático de que tanto se fala mundo afora.
Pois as recentes investidas desse vento frio vieram trazendo lá do Sul uma enxurrada de más notícias, na forma de anulações de condenações de crimes e falcatruas bem conhecidas e comprovadas. Sob argumentos variados, homens poderosos da justiça anularam algumas das penas e processos que foram imputados a Eduardo Cunha, Flávio Bolsonaro, Lula, Sérgio Cabral e, de quebra, a Jacob Barata, o “rei dos ônibus” do Estado do Rio.
O que me intriga é constatar que tais decisões mereceram pouquíssimos espaços na imprensa e quase nenhuma crítica contundente de políticos por motivos que desconheço, mas que posso supor serem os mesmos de sempre. De uma coisa tenho certeza: essas decisões produziram muitas alegrias para os respectivos advogados de defesa. Isso, sem falar na felicidade inesperada dos que passaram a compor a fila dos injustiçados por obra e graça dos votos de uns poucos ministros do STFSTF.