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Desdobramentos no país

As previsões no Brasil são de mais desmontes, quebras, ameaças e medos

A depender dos próximos capítulos, o instinto de sobrevivência, algo que cada qual tem na exata proporção dos seus próprios interesses, poderá assumir a condição de fator determinante no desenrolar dos acontecimentos

Publicado em 25 de Junho de 2021 às 02:00

Públicado em 

25 jun 2021 às 02:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Presidente Jair Bolsonaro entre ministros do governo
Esperto e assessorado, mas a cada dia mais solitário e nervoso, presidente tenta atrair para sua sombra todos que estejam dispostos a pegar carona no bonde de uma história de final incerto Crédito: Alan Santos/PR
Atuei muitos anos no setor público federal, sempre às voltas com incumbências desafiadoras, com a sensação de que o futuro existia e estava logo ali. Desde o Brasil grande para uns poucos, ao lado de muita gente séria e disposta.
Hoje, pai de 5 e avô de 8, ando preocupado com o ambiente que vai se formando por aqui, provocando em mim um vazio de concordância, confiança e respeito. Nada que me inspire. As previsões são de mais desmontes, quebras, ameaças e medos. Tenho visto muita bobagem sendo dita com convicção e, sobretudo, por estratégia, muita compra de apoio e de lealdade com dinheiro público, muita falta de pudor em receber mimos, muita vontade de se dar bem às custas dos outros, muita gente acreditando no mito da vez.
Bater boca, não bato, por princípio e bom senso. Reclamar, também não, por estragar o fígado e produzir baixo astral corrosivo. Criticar presidente pra quem acredita nele é inócuo e pode destruir amizades.
Sempre acreditei em 3 poderes mágicos que estão à disposição de todos nós: o de definir a pauta, propondo o que deve ser tratado com prioridade; o de convocar pessoas e organizações para colaborar no enfrentamento de cada uma; e, por último, o poder de conectar interesses de quem se mostre disposto a colaborar, inclusive aqueles animados pela oportunidade de tirar alguma vantagem.
A potência desses poderes pode ser ampliada pelo uso esperto das canetas, pela exploração dos traumas e desavenças individuais e de grupos, pela instigação de convicções políticas e ideológicas de cada um. Sempre há quem consiga se aproveitar da ingenuidade de muitos para criar e orientar massas de manobra.
Hoje quem está literalmente impondo a pauta política, é o presidente. Imagino que faça isso seguindo uma estratégia de ocupação das mentes de pessoas e, também, para desgastar e enfraquecer instituições e lideranças que possam atrapalhar suas pretensões.
Esperto e assessorado, mas a cada dia mais solitário e nervoso, ele tenta atrair para sua sombra todos que estejam dispostos a pegar carona no bonde de uma história de final incerto.
A depender dos próximos capítulos, o instinto de sobrevivência, algo que cada qual tem na exata proporção dos seus próprios interesses, poderá assumir a condição de fator determinante no desenrolar dos acontecimentos.
Nesta semana, umas poucas notícias bombásticas, dessas que podem gerar um processo gradual de políticos decidindo pular do bonde andando. Entre elas, se destacam as sobre o envio, pela PF, do celular do ex-ministro das boiadas ao FBI, para desbloquear o acesso aos seus conteúdos e, ainda mais graves, as que tratam da denúncia, feita por um funcionário público, sobre disfunções na compra de vacinas pelo governo federal. Estas, me fizeram lembrar dos depoimento do caseiro e motorista de Fernando Collor. Oremos, mais um pouco.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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