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É Fisioterapeuta, acupunturista e especialista em avaliação e tratamento de dor crônica pela USP. Entende a saúde como um estado de equilíbrio para lidar com as adversidades da vida de forma mais harmônica

O poder do diagnóstico

Quando um paciente busca um profissional de saúde para suas queixas, ele quer dar um nome, quer ser entendido e aceito

Publicado em 14/06/2021 às 02h00
consulta médica
É preciso um diagnóstico para conseguir auxílios sociais, para comprovar comorbidades e garantir vacinas. Crédito: consulta médica

A palavra diagnóstico se origina do grego diagnosis, e remete a ações de reconhecer, discernir, distinguir, separar. Quando um paciente busca um profissional de saúde para suas queixas, ele quer dar um nome, quer ser entendido e aceito. Quer que sua experiência com a doença seja reconhecida e diferenciada e ter um nome tem um grande significado social. Remete a controle – ainda que falso – e à justificativa para aquele estado.

Não saber chega a ser pior do que não ter cura. A percepção particular da doença se origina nas representações sociais, apontando para o caráter coletivo dessa experiência. É preciso um diagnóstico para conseguir auxílios sociais, para comprovar comorbidades e garantir vacinas. Não importa qual será o tratamento, se existe tratamento ou qual o prognóstico. Só importa dar um nome.

Como se para cada incômodo, dor ou disfunção correspondesse um sintoma e cada sintoma correspondesse uma categoria diagnóstica, cada diagnóstico a uma carência e, portanto, um tratamento. Quando chamamos a doença de objeto natural, coisificamos a pessoa que sente, excluindo-a de ser o centro para onde se dirige a atenção em saúde.

As doenças são multicausais e isso já se sabe há muito tempo. Apesar de tão antigas as reflexões sobre, ainda há uma forte tendência a buscar uma localização exata de anomalias no corpo trazendo uma resposta biológica desse caráter patológico. Se a lesão está mapeada, é possível reduzir as milhares de causas possíveis a uma única linear, mecânica e simplificada.

É assim que se trata uma ressonância magnética, por exemplo. E a hérnia encontrada estará lá, circulada a caneta. O indivíduo que chega com a queixa, extremamente complexo, entremeado numa teia de acontecimentos emocionais, sociais e hábitos de vida, é reduzido a uma representação de imagem estática. Entretanto, agora ele tem uma doença e um código com letra e número para chamar de seus.

O overdiagnosis, ou sobrediagnóstico, é um fenômeno em que é feito um diagnóstico de uma "doença" que nunca causará sintomas ou morte durante a vida normalmente esperada de um paciente. O sobrediagnóstico é um efeito colateral do rastreamento das formas iniciais da doença. É por causa deste fenômeno que alguns pacientes recebem tratamentos desnecessários para situações irrelevantes.

É uma veneração a biopolítica e a autoridade em saúde. É um culto às certezas e ao reducionismo em saúde. Um diagnóstico em saúde é importante para direcionamento de condutas, mas não pode ser algo fechado, pois é humano ser dinâmico e o dinamismo dita as oscilações entre saúde e doença. O olhar mais terno sobre o sujeito é a chave para entendê-lo na maior subjetividade clínica e assim promover saúde.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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