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Livraria Âncora: porto seguro para intelectuais no Centro de Vitória

Ponto de encontro de escritores e artistas capixabas nas décadas de 60, 70 e 80, Livraria Âncora era uma parada obrigatória na Rua Nestor Gomes

Publicado em 03/03/2018 às 19h09
O movimento na livraria Âncora, no Centro de Vitória, nos anos 80. Crédito:  Nestor Muller/Arquivo/30/04/1987
O movimento na livraria Âncora, no Centro de Vitória, nos anos 80. Crédito: Nestor Muller/Arquivo/30/04/1987

Sempre que passo pela estreita rua/ladeira Nestor Gomes, no Centro de Vitória, vem-me à memória uma nostálgica lembrança da antiga Livraria Âncora, a mais completa e a mais frequentada desta Ilha de Nossa Senhora da Vitória nas décadas de 60, 70 e 80 do século passado, sob o comando do afável livreiro Nestor Cinelli. Foi ali, na saudosa Âncora, que conheci muitos dos intelectuais capixabas da época. Entre eles, recordo-me de Nelson Abel de Almeida, Nilo Martins da Cunha, Ruy Côrtes, Adelpho Polli Monjardim, Renato Pacheco, Homero Mafra, Jayme Santos Neves, José Moysés, Rômulo Salles de Sá, Aylton Rocha Bermudes, Alberto Stange Júnior e outros, muitos outros, com os quais edifiquei sólida amizade, tendo com eles muito aprendido do pouco que sei no campo da literatura. Daqueles meus primeiros mestres e ídolos, poucos ainda restam por aqui neste “vale de lágrimas”. Quase todos já subiram rumo ao encontro de Deus, na eternidade.

Intelectuais dos mais diferentes matizes do conhecimento acotovelavam-se entre as prateleiras e os balcões da velha livraria à procura de alguma obra do pensamento que lhes dirimisse as dúvidas e incertezas que embaçavam suas andanças pelos longos caminhos da cultura e do saber. Literatos, juristas, professores, cientistas, historiadores, geógrafos, bem como outros intelectuais, todos passavam pela Âncora, às vezes mais de uma vez por dia, à procura do néctar que lhes desse doçura espiritual para o intelecto, satisfazendo-lhes a ânsia de cultura. Jovens e velhos, estudantes e professores, neófitos e veteranos na arte das belas-letras, lá se encontravam, interagiam entre si e se integravam numa doação recíproca de ensinamentos. Uns aprendiam com os outros.

No fim da década de 1970/início da de 1980, muito jovem ainda, frequentei, diariamente, a Âncora. Ia lá comprar ou encomendar alguns livros e, principalmente, encontrar meus primeiros mestres capixabas na arte literária para uma troca de ideias ou mesmo à procura de aconselhamentos e orientações para minha direção nos caminhos literários. Longos fins de tardes passei entre aquelas prateleiras ou encostado àqueles balcões, folheando livros, lendo-lhes as orelhas, os prefácios e, muitas vezes, ouvindo o professor Nelson Abel de Almeida, o juiz Ruy Cortes, o poeta Elmo Elton, o jornalista Edgard Gomes Feitosa e outros, outros...

Lembro-me de, nessa época, ter participado do lançamento de vários livros de autores conterrâneos que, ainda, nos dias hodiernos, são avidamente lidos e estudados por estudantes e professores. Nesses dias de lançamentos de livros, a loja ficava cheia, buliçosa e festiva, num delicioso e contagiante alarido, com o reencontro de tantos amigos colocando a conversa em dia. A mim me parecia que até os livros conversavam em voz alta com as estantes, tão agradáveis eram aqueles encontros entre pessoas de ideias e pensamentos convergentes ou divergentes. Ah, como eu me embevecia e me encantava ouvindo aqueles mestres-ídolos, luminares da palavra escrita transformada em poesia e ficção, refinada arte literária! E o melhor de tudo é que estavam todos dispostos a transmitir suas experiências aos mais novos, com atenção, carinho e abnegação, incentivando e apontando rumos às novas gerações.

Esses encontros valiam como cursos de literatura, seminários, congressos, o que significa dizer que a velha Âncora, além de comerciar livros, era, também, uma respeitada Faculdade de Letras, cujos professores lecionavam de graça e eram os melhores do Espírito Santo. Quantas lições recebi ali de Adelpho Polli Monjardim, Renato Pacheco, Ruy Côrtes, Elmo Elton e tantos outros que respondiam às minhas indagações, ensinando-me o que eu não sabia e esclarecendo minhas dúvidas! Quantas!... Fui aluno dessa faculdade.

E mais: A Âncora também foi editora, modesta, mas foi. “A História do Espírito Santo”, de Maria Stella de Novaes, a coletânea “Torta Capixaba” (prosa e verso), de vários autores, e “Pedro Leppaus: erro judiciário contado ao povo”, de Renato Pacheco, vieram a lume com o selo de editora da tradicional livraria.

* Matusalém Dias de Moura é procurador da Assembleia Legislativa e membro da Academia Espírito-Santense de Letras. Texto foi publicado no Pensar em 06/01/2018

 

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