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Ave que deu nome a Guarapari já não é mais vista na cidade

Guará, ave de plumagem avermelhada e que tem essa coloração por conta da alimentação predominantemente feita à base do caranguejo,  tem incidência em outras regiões litorâneas, porém não na costa capixaba

Publicado em 16/12/2019 às 13h18
Atualizado em 16/12/2019 às 13h34
O tom avermelhado das penas do guará se dá por um pigmento presente no caranguejo que faz parte da dieta da ave. Crédito: Martin Mecnarowski / Shutterstock.com
O tom avermelhado das penas do guará se dá por um pigmento presente no caranguejo que faz parte da dieta da ave. Crédito: Martin Mecnarowski / Shutterstock.com

O Marlim Azul é o animal símbolo de Guarapari e existe até um monumento na Praia do Morro em homenagem ao peixe, mas é um outro bicho, que vive em outro ecossistema, que ajudou a construir o nome atual do município, um dos mais procurados por quem quer curte o verão.

Trata-se do Guará (Eudocimus ruber), uma ave de plumagem avermelhada e que tem essa coloração por conta da alimentação predominantemente feita à base do caranguejo chama-maré (Uca maracoani), que possui carotenoides, um pigmento capaz de tingir as penas do bicho, segundo o biólogo especializado em aves Fabrício Eller. Mas por onde anda, ou melhor, voa o Guará?

Não em Guarapari. De acordo com o biólogo, atualmente a ave tem incidência em outras regiões litorâneas, porém não na costa capixaba. "O bicho passou muito tempo sem registros no Sul e no Sudeste brasileiro, mas depois da década de 90 ele voltou a aparecer no estado de São Paulo. Desde então, a população avançou para o Paraná e também para Santa Catarina, mas a incidência atual por aqui é muito baixa", detalhou o biólogo.

ORIGEM DO NOME

Existem algumas versões para a explicação do nome de Guarapari, porém a que mais se destaca é a da mistura de nomes de linguagens indígenas, como explica o professor e historiador Fernando Achiamé.

"Nos relatos históricos, "guara" faz menção ao pássaro, parecido com uma garça vermelha, que era muito encontrada nas proximidades dos manguezais do povoado e "pari" seria uma espécie de armadilha feita pelos índios nativos para a caça desse animal. Acredito que não para consumo da ave em si, mas sim pelas penas avermelhadas para a montagem do cocar, por exemplo. Existem registros que fazem menção ao guará nesta região", detalhou Achiamé, complementando que nomes das línguas indígenas foram utilizados para substituir as nomenclaturas portuguesas.

"O antigo nome de Guarapari no século XIX era grafado como Guaraparim. O que é fato é que é um nome antigo, não foi inventado. Nos anos 30 e 40 danaram a inventar nomes para substituir nomes portugueses, muitos deles derivados do Tupi. E no caso de Guarapari, a tradução mais aceita é que seria armadilha para pegar guará. A região também foi conhecida como Aldeamento Nossa Senhora de Conceição", detalhou.

Guarapari é uma das cidades mais procuradas por turistas no verão em todo o Estado. Crédito: Secundo Rezende/Drone
Guarapari é uma das cidades mais procuradas por turistas no verão em todo o Estado. Crédito: Secundo Rezende/Drone

Um dos grandes desbravadores do Espírito Santo, o padre José de Anchieta, também fez menção ao Guará. Um registro histórico do jesuíta na atual Área de Proteção Ambiental de Sapiatiba, no Rio, descreve bem as características do animal.

"Ave marinha, por nome guará, igual ao mergulhão, mas de perna mais comprida, de pescoço igualmente longo, de bico estendido e adunco. Alimenta-se de caranguejos e é muito voraz. Na primeira idade reveste-se de penas brancas, que se mudam depois em cor cinza, e passando algum tempo, tornam a embranquecer, embora de menor alvura que na primeira idade, e por fim, ornam-se de cor purpúrea, belíssima; as quais os brasis muito apreciam, pois com elas enfeitam os cabelos e braços em suas festas".

O nome do pássaro também é mencionado pela biblioteca do IBGE na explicação do nome da cidade capixaba. "O primeiro nome foi Vila dos Jesuítas, depois, Aldeia de Nossa Senhora, Aldeia de Santa Maria de Guaraparim, Guaraparim, Goaraparim e finalmente, Guarapari, vocábulo de origem indígena, derivado (segundo Montoya e Saint Hilaire) de guará-pássaro de arribação, que aparece à beiramar de variadas cores - e pari - rede, significando lugar onde se armam redes para apanhar guarás", diz o trecho.

O guará é um ave que vive em áreas de manguezais e vive em grupos que chegam  até 50 animais. Crédito: Martin Mecnarowski / Shutterstock.com
O guará é um ave que vive em áreas de manguezais e vive em grupos que chegam  até 50 animais. Crédito: Martin Mecnarowski / Shutterstock.com

CIDADE DE GUARAPARI

Segundo a Prefeitura de Guarapari, no dia 19 de setembro de 1891, a Lei Estadual nº 28, sancionada pelo juiz de Direito e Presidente da Província, coronel Manoel da Silva Mafra, deu a Guarapari foros de cidade. O serviço telegráfico, inaugurado em 1888, teve influência marcante na emancipação política da cidade. Mas foi apenas em 1948 que a cidade teve a Câmara Municipal instaurada pela lei n° 779.

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Por habitar outras regiões, o nome da ave também influenciou na nomenclatura de outros municípios e regiões pelo país, como Guaratiba (Rio de Janeiro), Guaratuba (Paraná), Guarapiranga (São Paulo) entre outros.  A ave ainda é o símbolo da ilha de Trinidad e Tobago

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