Publicado em 17 de setembro de 2022 às 11:55
NATAL - "Procura-se alguém que provoque frio na barriga, para amor verdadeiro ou encontro sem compromisso".>
"Confirmar voto ou aversão a Lula, ou, de acordo com o perfil, a Jair Bolsonaro, é também pré-requisito para acender ou esfriar o clima".>
Às vésperas de uma eleição carregada de polarização no Brasil, desejos e marcas políticas como essas aparecem, cheios de variações, em páginas de relacionamentos em que o "match perfeito" depende, cada vez mais, do apoio ou rejeição aos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas.>
"Não namoro Lulista", "Namorar Bolsonarista, não", e beijar ou sair com quem apoia um ou o outro "seria um nojo", são exemplos de como o comportamento se manifesta, e tem acendido o alerta de especialistas.>
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O movimento que se alastra em redes sociais e aplicativos de relacionamento seria reflexo da politização da sociedade e de mais polarização política, observa José Mauro Nunes, doutor em psicologia e professor da FGV (Fundação Getulio Vargas).>
"Nós vemos um fenômeno de politização da internet muito forte no Brasil desde 2013 [quando eclodiram grandes manifestações de rua] e isso vem se acelerando a partir da eleição de Bolsonaro em 2018, quando esse fenômeno se intensifica na sociedade a ponto de se manifestar nas escolhas afetivas, no ambiente familiar e nos relacionamentos de amizade também", afirma.>
Essa politização, observa, tem criado uma espécie de "futebolização" dos relacionamentos, quando comportamentos amorosos se assemelham ao de torcidas esportivas. Também surge, cada vez mais, o chamado "fenômeno de bolhas", de pessoas que tendem a se aproximar e se relacionar apenas com quem tem o mesmo sistema de crenças, valores e preferências políticas.>
Inserir e reforçar marcas políticas em plataformas de relacionamentos acabou virando também um mecanismo de proteção contra conteúdos tóxicos, possíveis assédios e outras investidas indesejadas.>
A advogada Emelise Aires, 27, escreveu, em seu perfil: "Macho escroto nem tente! Sem mimimi de Bolsonaro".>
"É um posicionamento para demonstrar que não sou idealizadora de quem busca debates políticos em um momento de descontração", diz. "Infelizmente, já fui abordada por pessoas que a primeira pergunta era em quem eu votaria e isso passou a incomodar bastante".>
A questão partiu de potenciais pretendentes que apoiam o atual presidente. As abordagens geraram discussões e tentativas de conversão político-partidárias, frisa Emelise. E se respondia em quem vota, informação que, em regra, prefere manter em sigilo, "parecia que um sentimento de discórdia era estabelecido".>
"Eu era tratada como inimiga, embora já tenha conversado com eleitores do candidato que respeitaram o meu posicionamento de não desejar falar sobre o tema".>
Elaine Souza, criadora do Bolsolteiros, grupo do Facebook para eleitores solteiros de Bolsonaro, afirma que "há pessoas mais radicais e outras que deixam o amor falar mais alto". Pessoalmente, conta que já namorou um eleitor do Lula, mas que hoje não namoraria. "Os valores são completamente diferentes".>
Os reflexos desse clima são percebidos de Norte a Sul do Brasil, segundo exemplos identificados pela reportagem em aplicativos de relacionamento como Tinder, Badoo e Happn, e redes sociais como Instragram, Twitter e Facebook.>
Em setembro de 2020, o Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), encontrou marcas de identidade política em São Paulo, principalmente entre pessoas de esquerda, mulheres e jovens que residem fora da periferia. A pesquisa englobou 48 mil perfis de um grande aplicativo de relacionamentos.>
"Nós estamos vendo no Brasil um crescimento da polarização afetiva, da hostilidade por quem adota a identidade política adversária, e tudo indica que essa hostilidade está aumentando", diz Pablo Ortellado, um dos autores da pesquisa e coordenador do Monitor.>
O pesquisador não descarta que o movimento tenha aumentado dois anos após o inicio do trabalho, e afirma que as relações afetivas com quem pensa diferente contribuem para um ambiente menos hostil.>
"A partir do momento que você não convive com pessoas diferentes, a partir do momento que você nega, que acha absurdo, repulsivo ter relações afetivas com uma pessoa que pensa diferente, ou que a gente acha que pensa diferente, essa hostilidade vai se consolidando e aumentando", complementa o professor.>
Maria Goretti Nagime, idealizadora do PTinder, perfil de Instagram para relacionamento entre esquerdistas, afirma que "as pessoas não consideram votar em A ou B uma questão de gosto", mas sim "porque existem características típicas de uma pessoa progressista e típicas de uma pessoa bolsonarista, perfil do qual buscam fugir".>
"O voto é um pré-requisito cada vez mais forte", diz. "O que percebo na página é que as pessoas procuram o amor de verdade, uma conexão inexplicável, o frio na barriga. Mas sem admiração mútua, não acontece nem amizade nem paquera".>
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