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São Paulo

Professora relata como sofreu ataques após debater gênero em sala de aula

Relatório de ONG mostra como pressão sobre os educadores interfere no ensino do tema

Publicado em 13 de Maio de 2022 às 09:38

Agência FolhaPress

Publicado em 

13 mai 2022 às 09:38
Virgínia Ferreira, 61, era professora de inglês da rede pública de ensino fundamental de Vinhedo, no interior de São Paulo, há 20 anos quando foi acusada de doutrinação. A educadora havia proposto uma atividade sobre feminismo e violência contra a mulher na semana do Dia Internacional da Mulher de 2019.
Enquanto falava sobre termos como gaslighting (deslegitimação de posicionamentos femininos como se fossem exagero ou loucura) e manterrupting (interrupção da fala de uma mulher por um homem que aspira ter a última palavra), a professora foi gravada por uma aluna e depois denunciada pelo pai da estudante.
Virgínia Ferreira fez projeto sobre feminismo e violência contra a mulher e  sofreu processos administrativos.
Virgínia Ferreira fez projeto sobre feminismo e violência contra a mulher e sofreu processos administrativos. Crédito: Rubens Cavallari/Folhapress
Alvo de dois processos administrativos, a professora diz ainda ter sofrido ataques e campanhas de difamação nas redes sociais. "Havia uma série de comentários desqualificadores de pessoas que não me conhecem, não conhecem o meu trabalho e nunca passaram na porta da escola", lembra Virgínia.
Ela é um dos 32 professores entrevistados pela ONG internacional Human Rights Watch (HRW) para o relatório "Tenho medo, esse era o objetivo deles: esforços para proibir a educação sobre gênero e sexualidade no Brasil", lançado nesta quinta-feira (12).
O documento aponta que 20 desses educadores afirmaram terem sofrido assédio ao abordar temas de gênero e de sexualidade, entre 2016 e 2020, tanto de representantes eleitos como de membros das suas comunidades. Alguns foram intimados a prestar esclarecimentos nas secretarias de educação, no Ministério Público ou mesmo na polícia. A educação sexual e de gênero tem efeitos protetivos comprovados por estudos.
De acordo com o relatório, os processos, ainda que não tenham resultado em punição, tiveram peso nas vidas profissionais e particulares dos educadores, com impacto inclusive sobre sua saúde mental. "Passei um período com crise de ansiedade e procurei uma psicóloga do SUS na minha cidade, que fez um acolhimento muito qualificado comigo por alguns meses", diz Virgínia.
"Primeiro porque tem a questão da surpresa, de saber que seu ambiente foi violado. A exposição pública também é desgastante, e tem gente mais radical que incentiva a violência. Você se sente vulnerável. E de uma forma maldosa porque não havia debate. Havia julgamento e ataque", lamenta.
"A escola é um ambiente em que a gente identifica violências contra crianças e adolescentes. É um espaço em que muitos alunos se sentem seguros para compartilhar vivências das suas casas, então eu tenho certeza da pertinência desse conteúdo", defende Virgínia, que contou com a ajuda da Defensoria Pública de São Paulo por meio do Núcleo Especial de Direito da Mulher.
Outros depoimentos contidos no relatório apontam para a gravidade da situação. Alguns relatam ameaças de morte nos meios cibernéticos, demissões e, principalmente, o medo de retomar o tema em sala de aula. O documento da HRW analisa também 217 projetos de lei apresentados entre 2014 e 2022 destinados a proibir o ensino ou a divulgação de conteúdo sobre gênero e sexualidade, ou a banir das escolas da rede pública o que é chamado de "ideologia de gênero" ou "doutrinação".
"Ao me atacar, muitas pessoas se posicionaram contra um debate sobre as violências sofridas pelas mulheres e sobre sua superação. A quem interessa silenciar um debate importante desses? Só quem se beneficia disso."
O fato de ser filiada a um partido de esquerda, o PSOL - que ela diz não influir na sua atividade em sala de aula -, fez Virgínia ser criticada em um vídeo do Movimento Brasil Livre (MBL).
O vídeo do grupo político que tem forte base na cidade do interior paulista exalta a "importância do Escola Sem Partido" e aponta o caso como exemplo de que os impostos dos brasileiros estariam "pagando verdadeiros militantes para formarem partidos de esquerda dentro da sala de aula do ensino público".
"Os processos e os ataques nas redes sociais afetaram a minha vontade de ensinar e começou a acontecer uma autocensura. Passei a me questionar demais sobre abordar ou não o assunto. O objetivo dessas pessoas é a censura, e eu não quero ceder a isso", conta Virgínia.

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