Publicado em 22 de agosto de 2021 às 13:50
Não faltam pré-candidatos (pelo menos dez já foram lançados) nem dirigentes partidários na disputa por holofotes em que se transformou a saga da terceira via para as eleições presidenciais de 2022. >
Mas a busca de uma opção para encarar Jair Bolsonaro (sem partido) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) que seja ao mesmo tempo competitiva e capaz de unir setores que se denominam de centro movimenta também, nos bastidores, uma rede de articulação variada, influente e, mais do que nunca, ansiosa. >
A teia, que ganhou propulsão desde março, com a reabilitação eleitoral de Lula, une raposas políticas que estão afastadas de posições de poder, representantes do empresariado e do mercado financeiro preocupados com a economia e líderes de movimentos da sociedade civil. >
São pessoas que se recusam, por motivos variados, a aceitar a polarização mostrada pelas pesquisas de intenção de voto – lideradas pelo petista, seguido pelo atual ocupante do Planalto. Para ter em quem votar no segundo turno, a turma dos inconformados se vale dos canais de pressão que tem à mão. >
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Na arena de embates predileta de lulistas e bolsonaristas, as redes sociais, o desafio de promover uma alternativa que ainda não tem nome definido nem patamar significativo nas sondagens foi assumido recentemente pela estudante de ciência política Monalisa Carneiro, de 30 anos. >
Principal rosto do recém-criado Movimento Há um Caminho, a ex-miss Mundo Goiás protagoniza vídeos nos perfis do Instagram, do Twitter e do TikTok. "Nossa pauta é clara: viabilizar a terceira via e conscientizar as pessoas para os prejuízos de uma eleição do Bolsonaro ou do Lula", afirma ela. >
Ex-candidata a deputada estadual e vereadora, filiada ao DEM e ex-aluna do curso de novos políticos RenovaBR, Monalisa diz que foi chamada para o movimento por outros jovens aliados da causa. Segundo ela, a iniciativa é financiada por "um grupo de empresários de São Paulo" que não quer aparecer. >
João Doria e Eduardo Leite (que disputam as prévias do PSDB), Ciro Gomes (PDT), Simone Tebet (MDB), Sergio Moro (sem partido) e Luiz Henrique Mandetta (DEM) são alguns dos presidenciáveis citados nos vídeos da influenciadora, repletos de dancinhas, dublagens, enquetes e desafios típicos das redes. >
Monalisa diz que ainda não tem pré-candidato de preferência, que o trabalho não está ligado à sua filiação e que não há favorecimento ao colega de partido Mandetta. "O que buscamos é apresentar os nomes e difundi-los em uma linguagem que todo o mundo possa entender", afirma. >
O clamor na sociedade por uma opção fora "dos extremos" é crescente, na visão da ex-miss. Outros perfis, como o Movimento Terceira Via (que não respondeu à reportagem), também surgiram. "Bolsonaro é um lunático que prometeu e não cumpriu. Lula é um ex-presidiário e nos deixou a Dilma [Rousseff]", critica ela. >
O Há um Caminho está convocando para a manifestação de 12 de setembro do MBL (Movimento Brasil Livre) e do VPR (Vem Pra Rua) em apoio ao impeachment do presidente e à bandeira da candidatura alternativa. Os grupos esperam que o ato mostre a força da onda "nem nem" (nem um nem outro). >
Como esse sentimento não foi demonstrado pelas pesquisas, tornou-se comum ouvir de artífices do caminho do meio os mais variados argumentos para justificar a inexpressão desse polo nos levantamentos. A ordem é jogar luz sobre sinais que evidenciariam o potencial de sucesso. >
Entusiastas dizem que não se deve olhar só para as intenções de voto, mas também para as taxas de rejeição (que foram de 59% para Bolsonaro e de 37% para Lula no Datafolha de julho). Lembram também, baseados em pesquisas, que em torno de 50% dos eleitores desejam uma opção além dos dois. >
Outras mensagens de conforto, por assim dizer, repetidas por envolvidos no tema vão na linha de que o cenário ficará mais favorável até 2022 – a grande aposta é em uma erosão ainda maior da popularidade de Bolsonaro – e de que virá a esperada convergência, com a união dos vários nomes em torno de um. >
Reflexões do tipo vêm, sobretudo, de gente experiente em eleições, como os ex-presidentes Michel Temer (MDB) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (ex-MDB, PSB e PSDB). Todos são consultados por um leque variado de políticos e líderes do setor privado. >
Temer chegou ele mesmo a ser cotado como pré-candidato, mas está hoje mais interessado em ajudar a aproximar legendas e fabricar um projeto palatável à elite e ao eleitorado. Há alguns dias, ele falou sobre terceira via em palestra no Oval Table, plataforma com 700 membros, a maioria empresários. >
FHC, após ser criticado por tucanos por um encontro com Lula em maio, declarou apoio a Doria nas prévias da sigla. >
Ao lado do também ex-presidente José Sarney (MDB), Temer e FHC farão no próximo dia 15 a abertura de um seminário das fundações partidárias de PSDB, MDB, DEM e Cidadania. No pano de fundo do evento "Um novo rumo para o Brasil" está a demanda por uma via além de Bolsonaro e Lula. >
"Essa polarização não é boa para o Brasil", diz o ex-deputado federal Marcus Pestana (MG), presidente da fundação do PSDB e um dos organizadores. "O objetivo é trabalhar para preparar o ambiente. Antes da convergência de nomes, é preciso pavimentar o caminho pela convergência de ideias." >
Pestana confirma o diagnóstico, colhido pelo jornal Folha de S.Paulo com outros operadores no campo que vai do centro à direita, de que Ciro Gomes é uma opção tratada com ressalvas. Embora consiga patamar até razoável em pesquisas (cravou 9% em um dos cenários do Datafolha), é visto como mais alinhado à esquerda. >
"Há com ele, no campo das ideias, divergências substantivas. É questão de visão de país. Mas queremos manter uma interlocução. Podemos estar aliados em algum momento", comenta o tucano. Avaliações à parte, Ciro faz acenos ao centro e abriu guerra simultânea a Lula e Bolsonaro. >
Hartung, que até meados do ano era articulador da pré-campanha de Luciano Huck, manteve a rotina de diálogos em prol da terceira via mesmo após o apresentador desistir da campanha para continuar na TV Globo, o que frustrou a parcela do universo político que enxergava nele uma salvação. >
Convidado frequente para conversas fechadas sobre o quadro eleitoral, o ex-governador afirma ser positivo que o assunto atraia atenção. "Trabalhar por alternativas é saudável para a democracia, algo a ser valorizado. Ajuda o processo. É bom que o país tenha mais alternativas do que duas", diz. >
"Acho importante que esse movimento traga ao cerne do debate questões programáticas e caminhos para os problemas que o Brasil precisa enfrentar há décadas", segue Hartung, que, à frente da Ibá (entidade da cadeia produtiva de árvores, papel e celulose), fala com industriais e investidores. >
Também com trânsito privilegiado nos universos político e empresarial, o cientista político Luiz Felipe d'Avila é outro ativo na construção de pontes entre o PIB paulista, partidos e formadores de opinião. Organiza encontros mistos (virtuais e presenciais) e faz debates entre presidenciáveis. >
"Sou um arquiteto do centro", resume ele. "Não tenho preferência por um ou outro. Meu objetivo é edificar uma candidatura para vencer Lula e Bolsonaro. Não chamo de terceira via, mas de única." >
Ex-filiado ao PSDB (disputou as prévias da sigla em 2018 para governador, vencidas por Doria) e genro do empresário Abilio Diniz, d'Avila faz as costuras valendo-se de sua agenda de contatos e do trabalho com o CLP (Centro de Liderança Pública), criado e presidido por ele. >
A organização, que se define como suprapartidária, defende, por exemplo, a reforma tributária. O fundador diz rejeitar Bolsonaro e Lula por razões parecidas: "Tanto o populismo de esquerda quanto o de direita não entregou os avanços que as pessoas querem, que são emprego, renda, desenvolvimento". >
Com o agravamento da crise e o futuro sombrio projetado por economistas e analistas (um misto de crescimento estagnado e inflação acelerada), porta-vozes da área privada favoráveis à terceira via dizem que a chance de ascensão de uma candidatura ganhou fôlego nas últimas semanas. >
Embora setores que apoiaram a eleição de Bolsonaro em 2018 se mantenham ao lado do governo, uma parte começa a se descolar. O manifesto no início do mês em repúdio à ameaça do presidente de não realizar eleições em 2022, endossado por empresários, foi considerado um marco dos novos ares. >
"Eleição é um processo de ondas, e está começando a nascer uma nova onda, com esse tiroteio enorme entre as instituições e a constatação de que aquela recuperação prevista já está em risco", afirma George Niemeyer, dono da empresa de comércio exterior Multilink e fundador do fórum Oval Table. >
"Alguns [do grupo] me perguntam: 'Está louco de promover debate sobre terceira via? É algo inviável. Você está enfraquecendo o Bolsonaro e, indiretamente, fortalecendo o PT'. Isso é o que eu menos quero! O que defendo é que precisamos abrir uma terceira via para enriquecermos o debate", diz o empresário. >
Alguns dos que trabalham para emplacar a chamada terceira via em 2022:>
POSSÍVEIS CANDIDATOS DA CHAMADA TERCEIRA VIA PARA 2022 >
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