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"Pandemia só será vencida com cooperação", diz físico Fritjof Capra

Para o cientista, a crise atual deriva de um dilema fundamental: a ilusão de que podemos ter crescimento ilimitado em um planeta finito

Publicado em 19/11/2020 às 07h38
Coronavírus - Covid19
Cientista classifica a pandemia do coronavírus como uma resposta biológica do planeta às emergências ecológicas e sociais . Crédito: Dung Tran/Pixabay

A pandemia causada pelo Sars-Cov-2 explicitou uma crise multifacetada enfrentada pelo mundo atualmente, com problemas econômicos, sanitários, sociais e ecológicos que não podem ser solucionados isoladamente, segundo o físico teórico austríaco Fritjof Capra.

"Existem problemas sistêmicos que estão interconectados. Para resolvê-los, precisamos pensar sistemicamente. A pandemia só pode ser vencida com medidas de cooperação", afirmou Capra durante uma conferência no ciclo Fronteiras do Pensamento, transmitida pela internet nesta quarta-feira (18).

Capra é ainda especialista em educação ecológica e escritor. No livro "O Tao da Física" (Cultrix), publicado originalmente em 1975, ganhou notoriedade dentro e fora dos círculos científicos ao relacionar conceitos da física moderna, como a mecânica quântica, e as filosofias orientais tradicionais.

Em "Ponto de Mutação", livro de 1982 lançado no Brasil também pela Cultrix, o pesquisador propõe uma visão baseada no pensamento sistêmico para entender as diversas crises da atualidade.

Para o cientista, que classifica a pandemia do coronavírus como uma resposta biológica do planeta às emergências ecológicas e sociais, a crise atual deriva de um dilema fundamental: a ilusão de que podemos ter crescimento ilimitado em um planeta finito.

Refletir sobre os desequilíbrios ecológicos e sociais presentes no mundo é essencial para entender como chegamos à atual situação e buscar uma solução, diz o físico.

A invasão e destruição da natureza movida por interesses econômicos faz com que vírus que vivem em simbiose e harmonia com diversas espécies de animais sejam transportados a outras espécies para as quais podem ser até mortais, como diversos cientistas teorizam que seja o caso do novo coronavírus.

Cidades superlotadas, consequências diretas das desigualdades sociais e do desejo pela maximização dos lucros por parte das empresas, segundo Capra, agravam a crise sanitária e mostram como a justiça social pode atuar como uma barreira para conter a disseminação de uma doença como a Covid-19, além de fornecer outros benefícios para a sociedade.

"Em tempos normais, os ricos estão relativamente separados dos pobres; vivem em seus bairros, têm suas escolas, seus restaurantes e seus hospitais. O destino dos pobres não os afeta muito. Durante a pandemia, a situação muda dramaticamente, pois o vírus não conhece os limites sociais, e o destino dos pobres não está mais separado do destino dos ricos", disse Capra.

"Embora os pobres estejam mais suscetíveis a contrair e a morrer com a doença, o vírus é transmitido para todos. Ricos e pobres estão separados socialmente, mas não biologicamente. Justiça social não é uma disputa política de direita ou esquerda, mas uma questão de vida e morte. É necessário melhorar as condições de vida dos mais pobres para o bem comum", completou.

De acordo com Capra, é necessário superar a noção de que o crescimento econômico pode ser ilimitado e passar a medir o desenvolvimento com critérios qualitativos no lugar de índices econômicos como o PIB (Produto Interno Bruto), que ele chama de crescimento quantitativo.

Para ele, esse novo modelo de desenvolvimento envolve o uso de energias renováveis, a reciclagem contínua dos recursos e a restauração dos ecossistemas terrestres.

"Nosso desafio é trocar um sistema baseado em crescimento econômico por um modelo economicamente sustentável e socialmente justo", afirmou.

Segundo o físico, que foi professor na Universidade da Califórnia em Santa Cruz e em Berkeley, nos Estados Unidos, e é o atual diretor do Centro de Alfabetização Ecológica, com sede em Berkeley, a ciência contemporânea está incorporando cada vez mais uma visão sistêmica do mundo.

"O universo não é mais entendido apenas como uma máquina gigante, composta por blocos de elementos, mas é visto como um sistema vivo e autorregulável. Nessa mudança de paradigma, passamos de uma visão do planeta como uma máquina para enxergá-lo como uma rede", afirmou.

"Para alcançar as mudanças que queremos, precisamos criar e nutrir as comunidades, como existem na natureza. Em vez de buscar felicidade na compra de produtos, devemos buscar satisfação na vida em comunidade", concluiu.

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