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Gravidez teve 'teste' com cebola e sementes antes de revolução científica derrubar mitos

Gravidez teve 'teste' com cebola e sementes antes de revolução científica derrubar mitos

A farmacêutica Rossana Soletti escreveu um livro com um panorama da história da gestação

Publicado em 6 de janeiro de 2026 às 16:40

Mulher grávida
Gravidez teve 'teste' com cebola e sementes antes de revolução científica derrubar mitos Crédito: Shutterstock/ elenavolf

Apesar de ter conhecimento teórico sobre o que são e como se desenvolvem os embriões, foi quando estava grávida de sua primeira filha que a farmacêutica Rossana Soletti, 43, professora de embriologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), aprofundou-se nas mudanças fisiológicas e psicológicas que ocorrem durante a gestação.

Primeiro, diz ela, por ser fascinada pelo desenvolvimento embrionário. Segundo, porque, ao fazer buscas na internet sobre cuidados durante a gravidez, afirma ter visto muita desinformação. "Achei muitos canais dedicados à ciência que diziam, por exemplo, que uma dose de álcool de vez em quando não faz mal, sendo que hoje é sabido que qualquer quantidade é prejudicial ao desenvolvimento fetal. Então, se a gestante tem dúvidas, ou ela vai jogar no Google, ou ela acaba se deparando com conteúdos em mídias sociais, muitas vezes sem filtro. Isso me deixava agoniada."

Foi essa a motivação para escrever um livro contemplando desde a fase pré-concepção até o que ocorre com os pais — principalmente, as mães — durante e após a gestação de um bebê. Soletti, mãe de duas meninas, diz que passou por todas essas incertezas.

Lançado em 2025, "A Ciência da Gestação" (Editora Zahar) faz primeiro um panorama histórico sobre a visão científica da gestação, desde conceitos estapafúrdios, como a ideia de que os homens "carregavam a semente da vida" e as mulheres eram meros receptáculos (defendida por filósofos gregos), até os avanços mais recentes de reprodução in vitro e terapias gênicas capazes de alterar doenças genéticas durante o desenvolvimento fetal.

A autora traça, por exemplo, um histórico de como funcionavam os "testes" de gravidez na antiguidade. Se antes as mulheres eram levadas a urinar em um punhado de sementes de trigo ou cevada para determinar se estavam grávidas — o resultado positivo era se as sementes germinassem —, outras técnicas mais heterodoxas, para se dizer o mínimo, incluíam inserir uma cebola na vagina da suposta gestante; se, na manhã seguinte, a mulher tivesse hálito de cebola, então estava esperando um filho. Ainda, acreditava-se que mulheres consideradas "frias" durante a relação sexual iriam gerar meninas, algo sem nenhum respaldo científico. A determinação sexual dos embriões humanos ocorre pela presença de cromossomos XX ou XY, para sexo biológico feminino ou masculino, respectivamente.

Revoluções tecnológicas da segunda metade do século 20 permitiram aprimorar os testes de gravidez, em especial os de uso doméstico, em que se utiliza uma tira para determinar, por meio de hormônios presentes na urina, se existe um embrião em formação. Isso possibilitou a mulheres em todo o mundo ter conhecimento sobre suas gestações, conta Soletti no livro.

Se o progresso na ciência no passado corria na escala de séculos ou dezenas de anos, os últimos anos de estudos com desenvolvimento humano e células-tronco embrionárias resultaram em avanços em uma velocidade excepcional. "A tecnologia que vamos ter nas próximas décadas pode ser tão avançada a ponto de derrubar algumas questões éticas que surgiram com os primeiros  — bebês de proveta —, já que agora estamos falando de crescer embriões humanos para gerar órgãos em laboratório, ou mesmo terapias gênicas para tratar condições genéticas dentro do útero."

A autora dedica um espaço para exemplificar como a medicina, tradicionalmente feita por e para homens, deixou de lado conhecimento necessário para compreender a saúde feminina, especialmente a gestação. "Quando comecei a trabalhar com pesquisa em câncer, a orientação era de só utilizar animais machos, porque assim você consegue reunir um grupo mais homogêneo de dados para análise, já que as fêmeas, pelas variações hormonais, podem ‘atrapalhar’, bem entre aspas, alguns parâmetros. Só recentemente começamos a incluir também fêmeas em estudos com modelos não humanos, assim como gestantes."

No livro, a pesquisadora também cita que a ciência demorou anos para compreender o papel da placenta durante a gestação, e mesmo até recentemente era pouco compreendida sua atuação entre a mãe e o bebê. "A ideia de que a placenta seria uma barreira, embora muito difundida, não é correta, porque uma barreira, por definição, é qualquer coisa que impeça a passagem de algo, um obstáculo, contudo ela é um espaço de troca, onde camadas celulares permitem a entrada e saída de algumas substâncias."

Como participante do movimento Parent in Science (PiS), organização cujo objetivo é buscar maior inclusão e igualdade para pais e mães na ciência, Soletti encerra o livro com um capítulo dedicado à paternidade, algo que ela diz ter sentido necessidade de fazer devido à mudança no pensamento sobre papéis de gênero na criação dos filhos. "O embrião é formado igualmente do homem e da mulher, mas parece que o homem vai se afastando do seu papel após colocar o espermatozoide", diz a autora. "Existem pesquisas hoje que mostram que o cuidado com os recém-nascidos e na primeira infância por parte dos pais favorece o desenvolvimento infantil, mas isso ainda é muito pouco falado, até mesmo em perfis de divulgadores sobre maternidade. Por isso essa questão era essencial para mim."

A Ciência da Gestação

  • Preço R$ 89,90 (296 págs.)
  • Autoria: Rossana Soletti
  • Editora Zahar

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