No início de um ano letivo, nós, professores, tendemos a olhar apenas para o que está à frente: conteúdos, prazos e desafios. Ainda assim, por vezes, é necessário olhar para trás para compreender por que seguimos.
Confesso que, em meio às angústias e aos questionamentos sobre a permanência na docência em um mundo marcado pelo imediatismo e por uma crise de sentido da escola, muitas vezes me senti como um “professor do subsolo”.
Faço aqui uma alusão ao Homem do Subsolo, de Fiódor Dostoiévski, personagem marcado por uma consciência que se volta excessivamente para si mesma. Inspirado também em Bentinho, de Dom Casmurro, conceituei pedagogicamente esse estado docente como ensimesmamento: quando o professor passa a ensinar apenas para si mesmo.
Entretanto, esse professor do subsolo encontra, em outro personagem de Dostoiévski, o sonhador de Noites Brancas, a possibilidade de saída de si. Mesmo diante dos desafios contemporâneos, persiste em nós o desejo de encontro: de apresentar o mundo, de nos prolongarmos em conceitos, palavras, frases e equações.
Curiosamente, o sonhador de Noites Brancas nem sequer tem nome, pois é apenas no encontro com o outro que passa a existir. Algo semelhante ocorre com o professor: é no brilho do olhar do aluno que reconhece, de fato, sua própria existência docente.
Em muitas profissões, o resultado do trabalho é visível, imediato e concreto. O médico percebe seu esforço quando uma vida é salva; o engenheiro contempla o edifício que se ergue; o policial reconhece seu trabalho na cidade mais segura; o pedreiro vê o muro levantado; o padeiro encontra seu resultado no pão quente, ao fim da madrugada. O professor, porém, raramente contempla de imediato o fruto do que faz.
Como, então, manter-se motivado quando se ensina sem saber se aquilo florescerá? Isso não é um defeito da educação, mas é a sua própria natureza. Em um mundo no qual quase tudo é medido por indicadores, impõem-se algumas perguntas inevitáveis: como se mede a importância de um professor? Em que planilha cabe a transformação cognitiva, social e moral da vida de um aluno?
Nos Evangelhos, Jesus é frequentemente chamado de Rabi (Mestre). Não por acaso, sua forma de ensinar acontece por parábolas, perguntas, escuta, exemplo e convivência. Trata-se de uma referência cultural potente à figura do educador que não apenas transmite conteúdos, mas forma e transforma pessoas. Educar, nesse sentido, sempre foi e continuará sendo apostar no humano, confiar na transformação e não desistir do educando.
No capítulo 13 do Evangelho de Mateus, Jesus apresenta a parábola do semeador. As sementes lançadas encontram destinos distintos: algumas caem à beira do caminho, outras entre pedras ou espinhos, e outras em terra boa. O ponto central não está no controle do resultado, mas na fidelidade ao ato de semear. Educar é reconhecer que as sementes não crescem no tempo da ansiedade e que muitas germinam apenas muito depois. Talvez esse seja um dos sentidos mais nobres do ser e do fazer docente.
Henry Adams (1838–1918), historiador americano, sintetizou isso com precisão ao afirmar que o professor afeta a eternidade, porque nunca sabe onde termina sua influência. Inegavelmente, continuamos ensinando mesmo quando a aula acaba.
Na mesma direção, Rubem Alves (1933–2014), educador, filósofo e psicanalista brasileiro, comparou a educação a um jardim, e o professor a um jardineiro. O jardineiro prepara o solo, rega com paciência, respeita o tempo da planta, aceita que nem todas florescem ao mesmo tempo e sabe que algumas sementes demoram. Ele não fabrica flores, mas cria condições para que elas floresçam.
Assim também o professor: não controla os resultados, mas cuida do processo. As provas passam, as notas passam, os registros acadêmicos passam. Permanecem, contudo, uma palavra justa, um gesto firme, um olhar de confiança, um “eu acredito em você”.
Que essa seja a nossa certeza e nosso horizonte educacional neste ano letivo que se inicia.
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