Hoje chega ao fim Vale Tudo. Por sua própria natureza de remake, a novela já nasceu predestinada às comparações com a versão original. Ao mesmo tempo, o enredo é contemporâneo – era em 1988 e também é em 2025. Em vez de analisar os méritos e deméritos da nova versão, o que se pretende aqui é destacar o fôlego do gênero telenovela no Brasil, renovado com esta montagem de Vale Tudo.
Nas décadas de 1990 e 2000, a pesquisadora Maria Lourdes Motter (USP) tratava das relações entre ficção e realidade, por meio da construção do cotidiano na telenovela. Três décadas depois, uma nova versão de Vale Tudo reconstrói, reinventa e atualiza essa relação.
A exibição atual se beneficiou de dois modos complementares de experienciar a novela, que permitem alcançar públicos diversos: de um lado, a amplitude do alcance da TV aberta; do outro, a flexibilidade proporcionada pelo streaming, que permite assistir aos capítulos a qualquer momento.
Apesar do apagamento da protagonista vivida por Taís Araújo e da incorporação de tramas esdrúxulas, como os bebês reborn (que foram dura e merecidamente criticados), a novela retomou um engajamento nacional que há muito não se via.
As redes sociais contribuíram para esse fenômeno, compartilhando memes e reproduzindo cortes da novela, reinserindo as discussões sobre as telenovelas no cotidiano social – uma experiência coletiva que havia enfraquecido ao longo dos anos.
Nas últimas semanas, enquanto o elenco realizava festas de despedidas, o público continuava espectador, assistindo aos stories nas redes sociais e se sentindo participante – ou, pelo menos, com vontade de participar desses momentos. No sábado passado, um bloco de carnaval fora de época se formou no centro do Rio de Janeiro, homenageando Débora Bloch, que cativou o público como a vilã Odete Roitman.
Na reta final da novela, repetiu-se o mistério “Quem matou Odete Roitman?”, mas, desta vez, a curiosidade não era necessariamente sobre a identidade do assassino. O que os telespectadores queriam mesmo ver era como seria reescrito um dos crimes mais famosos da ficção brasileira – e quais seriam as lições deixadas pelo folhetim de 2025.
Enquanto nos preparamos para uma nova fase das novelas – no formato vertical, adaptado às telas de smartphones e ao limiar de atenção reduzido –, Vale Tudo termina com uma sensação de nostalgia. Não apenas em função da versão original, mas também por resgatar o espaço das telenovelas no nosso cotidiano.
Para nós, a novela é mais do que entretenimento; é também fonte de discussões sobre temas importantes e de questionamentos sobre as histórias contadas, na linha tênue entre ficção e realidade. Vale Tudo se despede, mas a novela continua, reconquistando seu lugar como espelho da vida brasileira.
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