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Sociedade

Por que adoramos Odete Roitman em 2025?

Em tempos de desconfiança das instituições e valorização do individualismo, a frieza e pragmatismo da personagem parecem seduzir mais do que assustar

Publicado em 26 de Maio de 2025 às 04:30

Públicado em 

26 mai 2025 às 04:30
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

A resposta à pergunta que intitula este texto é fácil e difícil ao mesmo tempo. Se por um lado a facilidade encontra-se no fato de a personagem encarnar a elite brasileira, por outro escancara o submundo da hipocrisia que se reveste do discurso da moral e dos bons costumes, combinado com irresponsabilidade social e ambiental, e o desejo da manutenção da desigualdade, visando à permanência do status quo.
A Odete Roitman do remake de "Vale Tudo" não assusta tanto quanto a personagem da versão original, pois devemos considerar uma combinação de fatores, quais sejam: mudança na interpretação da personagem, a adaptação da trama, a mudança de contexto cultural e a evolução das expectativas do público em relação à televisão, mas também, e sobretudo, o avanço da extrema direita e o desvelamento de uma boa parte da população que pensa e age como a personagem da trama, comungando dos mesmos princípios.
Em breve pesquisa nas redes sociais, as reações à Odete são bem variadas, incluindo aqueles que acham a “vilã” suave e ainda com franca defesa, a ponto de considerar a mesma a mocinha da novela, pois “sustenta” um bando de encostados que vivem em volta dela. A vilã de 1988 era odiada e as pessoas tinham medo dela, diferentemente de agora que existe fá-clube.
A personagem da novela "Vale Tudo" pode ser interpretada como um reflexo de certos aspectos da elite brasileira, especialmente em relação ao preconceito, à insensibilidade e ao descompromisso com o coletivo, representando um pensamento atrasado, conservador e de extrema direita, que assume o arquétipo do conservadorismo que perdura na sociedade, tanto em 1988, quanto atualmente. A diferença é que agora, ao que parece, os “pudores” pós-redemocratização foram solapados, e os que estavam camuflados se revelaram.
A personagem personifica o preconceito e a falta de sensibilidade de uma parcela da elite, que se preocupa mais com seus próprios interesses e privilégios do que com o bem-estar do país. Além disso, representa com competência, o abismo entre classes sociais que existe no Brasil, mostrando como a elite se distanciou da realidade da maioria da população, personificando a herança colonial e escravagista que permanece, caracterizando como uma elite que não se importa com o país e seus problemas, apenas com seus próprios benefícios.
O pensamento da personagem pode ser visto como um reflexo de figuras que clamam pela volta de regimes autoritários ou fazem apologia do nazismo. A personagem continua sendo atual e relevante, especialmente em um momento em que certos valores e ideais conservadores ganham força na sociedade.
Debora Bloch interpreta Odete Roitman
Debora Bloch interpreta Odete Roitman no remake de "Vale Tudo" Crédito: Reprodução @Deborabloch
Setores da sociedade que possuem aversão à pobreza ainda são muito fortes, fazendo com que a projeção se dê pelo desejo de muitas pessoas se verem no lugar social que a personagem ocupa. O fenômeno Odete Roitman no remake de ‘Vale Tudo’ escancara uma inversão curiosa: a vilã odiada na primeira versão da novela na década de 80 hoje é celebrada.
Em tempos de desconfiança das instituições e valorização do individualismo, a frieza e pragmatismo da personagem parecem seduzir mais do que assustar. Hoje, o público não apenas aceita as particularidades da maléfica, mas concorda com sua percepção de mundo, o que reflete mudanças e escancara contradições em relação aos valores sociais contemporâneos.
Odete Roitman não ficou “fofa”, a sociedade que tem piorado muito.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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