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É jornalista, mestre em comunicação e voluntária da ONG Alveare

Por que querem controlar nossos corpos?

Colocam sobre as mulheres a responsabilidade de evitarem um estupro, normalizando a violência e tirando do homem a obrigação de ser responsável pela sua própria conduta sexual e as consequências dela

Publicado em 27/06/2022 às 13h44

A cada dez minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. A cada 10 minutos,  uma mulher sofre uma violência sexual tão brutal que pode a silenciar para sempre. Uma criança de 11 anos,  uma jovem de 21 ou uma mulher de 61 anos, antes de silenciá-las por completo, nossa cultura patriarcal as silencia vagarosamente.

A ideia naturalizada da construção de uma mulher ideal permite que toda uma sociedade ache que tenha direito de opinar sobre o seu corpo, suas atitudes e decisões. Reforçada diariamente na televisão, nos filmes e músicas, essa erotização da dominação faz entender que o corpo feminino é de domínio público e influencia de maneira implícita esse número alarmante de violência contra mulheres.

Essa lógica, por exemplo, justifica a atitude de uma juíza de convencer uma criança a desistir do aborto garantido a ela por lei após um estupro, ou de jornalistas e influenciadores de exporem uma violência desumana sofrida por uma jovem de 21 anos. Isso pois o corpo feminino é encarado como público e, dessa forma, todos podem opinar o que bem entenderem.

Ensina-se às mulheres a se comportarem corretamente: não andarem sem a presença de um homem, evitarem roupas provocativas e estarem sempre atentas. Colocam sobre as mulheres a responsabilidade de evitarem um estupro, normalizando a violência e tirando do homem a obrigação de ser responsável pela sua própria conduta sexual e as consequências dela.

É assim que a construção da mulher enquanto um corpo dócil dá forças para o que conhecemos como cultura do estupro, uma relação de poder em que os homens podem exercer sobre as mulheres a sensação permanente de medo.

Por mais que o termo tenha se tornado popular há pouco tempo, a ideia da existência de uma cultura direcionada ao estupro não é algo novo. As discussões sobre a normalização da violência ganharam força com as feministas estadunidenses da década de 70, durante a segunda onda do feminismo. Entre elas a autora Susan Brownmiller em "Against our will" (1975), que afirma a existência da cultura do estupro a partir das construções sociais da sexualidade masculina, naturalmente entendida como agressiva, e da sexualidade feminina, ou falta dela, exigindo das mulheres um comportamento delicado, que evite confrontos.

É somente a partir de "Against our Will", há menos de 50 anos, que o estupro deixa de ser tratado como parte da biologia masculina e passa a ser tratado como um problema político sexual.

É por isso que denominar todo esse mecanismo de apropriação dos corpos femininos através da expressão “cultura do estupro” é uma das formas de elucidar o patriarcado, mostrando como a violência simbólica sofrida pelas mulheres se encontra em todo o lugar. Assim, o termo nos ajuda a parar de perceber o estupro como uma anomalia, uma exceção à regra, e começar a pensar que a raiz do problema está na cultura como um todo.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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