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É oncologista clínica

Por que ainda diagnosticamos o câncer colorretal tão tarde no Brasil?

O método mais simples, indicado para a população geral, é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, um exame que pode identificar pequenos sangramentos invisíveis a olho nu

  • Kitia Perciano É oncologista clínica
Publicado em 09/03/2026 às 15h28

O mês de março ganhou, nos últimos anos, um significado especial para a saúde pública. A campanha Março Azul surgiu com o objetivo de ampliar a conscientização sobre o câncer colorretal, um dos tumores mais comuns no mundo e que também apresenta crescimento importante no Brasil, principalmente entre os jovens. A iniciativa busca informar a população sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento, além de estimular uma conversa que, durante muito tempo, ficou cercada de tabus.

Felizmente, a campanha tem avançado. Hoje existe mais informação disponível, maior debate na sociedade e uma atenção crescente da comunidade médica para a importância do rastreamento. Ainda assim, um desafio permanece evidente: muitos pacientes continuam sendo diagnosticados em fases mais avançadas da doença.

Quando falamos em câncer colorretal, a primeira palavra que deve vir à mente é prevenção. Prevenir significa adotar uma dieta saudável, à base de vegetais e fibras, além de diminuição do consumo de carne vermelha. Já o diagnóstico precoce é realizado antes mesmo de os sintomas surgirem.

O método mais simples, indicado para a população geral, é a pesquisa de sangue oculto nas fezes, um exame que pode identificar pequenos sangramentos invisíveis a olho nu. A recomendação é que esse teste seja realizado de forma periódica, a cada seis meses ou anualmente, por pessoas a partir dos 50 anos.

Quando o resultado desse exame é positivo, o passo seguinte é a colonoscopia, que permite visualizar diretamente o intestino e identificar lesões ainda em estágio inicial. Em muitos casos, inclusive, é possível remover pólipos durante o próprio exame, evitando que evoluam para câncer.

Outro grupo que exige atenção especial é o das pessoas com histórico familiar importante de câncer, especialmente cânceres digestivos. Nesses casos, existe a possibilidade de síndromes hereditárias que aumentam o risco da doença. Por isso, familiares devem ser acompanhados com maior rigor, frequentemente por meio de colonoscopias periódicas e acompanhamento especializado.

O grande entrave, no entanto, não está apenas na conscientização da população. Ele também aparece na estrutura disponível para atender a essa demanda crescente. Na prática, muitos pacientes enfrentam dificuldades para realizar exames fundamentais para o diagnóstico. Mesmo quando surgem sintomas suspeitos, conseguir acesso à colonoscopia pode levar meses.

Essa realidade acaba comprometendo justamente aquilo que mais buscamos: o diagnóstico precoce. Quanto mais cedo o câncer colorretal é identificado, maiores são as chances de cura e menores são os impactos do tratamento.

Quando o diagnóstico é confirmado, inicia-se uma nova etapa. No campo clínico, especialmente no tratamento com quimioterapia e acompanhamento oncológico, muitos serviços conseguem oferecer atendimento relativamente ágil. Entretanto, quando falamos das cirurgias especializadas necessárias para tratar a doença, surgem novos obstáculos.

Intestino
Intestino. Crédito: Shutterstock

As cirurgias oncológicas exigem equipes treinadas, estrutura hospitalar adequada e salas cirúrgicas disponíveis. Em muitos lugares, a demanda é maior do que a capacidade de atendimento. Além disso, formar especialistas nessa área exige anos de dedicação, e nem sempre existem condições suficientes para atrair e manter esses profissionais nos serviços públicos.

Tudo isso revela um cenário que merece atenção. O avanço das campanhas de conscientização é fundamental, mas ele precisa caminhar com a ampliação da capacidade de diagnóstico e tratamento.

O câncer colorretal pode ser prevenido ou tratado com sucesso quando diagnosticado precocemente. Por isso, informação, acesso ao rastreamento e organização dos serviços de saúde são fundamentais. O Março Azul reforça esse compromisso com a prevenção e o diagnóstico precoce, porque falar sobre câncer colorretal é também falar sobre vidas que podem ser salvas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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