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É advogada, psicóloga e idealizadora do Projeto Ressignificando (@ressignificando_projeto)

Na maioria das vezes, a violência sexual contra crianças é silenciosa

O tema do abuso infantil ganhou as redes sociais nesta semana, com vídeo compartilhado pelo cantor Wesley Safadão, em que internautas apontaram uma suposta conduta inadequada de um pastor nas imagens

Publicado em 28/07/2021 às 15h38
Criança com brinquedo nas mãos
Na maioria dos casos, abuso sexual contra crianças ocorre no seio familiar. Crédito: Annie Spratt/ Unsplash

A semana iniciou-se com polêmica! O cantor Wesley Safadão compartilhou em suas redes sociais um vídeo em que pessoas encontram-se em sua casa, divertindo-se. Rapidamente, aqueles que veem o vídeo identificam a cena em que um homem abraça uma criança por trás, esta desvencilha-se e, ao deixá-la, tal homem abaixa sua camisa.

A sequência de comportamentos observados pelos internautas gerou reações de desconfiança quanto a um suposto abuso por parte do homem contra a criança. O vídeo foi tirado das redes pelo cantor, após um bombardeio de acusações de abuso sexual.

Vamos a algumas reflexões!

Iniciaremos com dados. No ano de 2020, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apresentou um estudo indicando que, do total de denúncias ocorridas no Disque 100 em 2019, 14% são de violações de direito das crianças e adolescentes. Dentro desse percentual, 11% são denúncias de violência sexual, ou seja, 17 mil ocorrências.

O estudo indicou também uma característica importante para o caso que estamos aqui refletindo: na maioria das vezes, o abuso ocorre no seio familiar e é realizado por pais, padrastos ou homens de confiança da família.

Importante deixar claro que a violência sexual é, na maioria das vezes, silenciosa, pois o abusador coage a vítima, indicando que fará mal a pessoas que ela ama caso conte sobre os abusos para alguém.

Outro ponto aqui a ser pensado é histórico. O homem indicado como abusador pelos internautas é pastor. Centenas de vezes na história nos deparamos com denúncias e crimes de violência sexual contra criança realizados por homens “dedicados a Deus”, que utilizaram sua posição justamente para conseguir o que desejavam. A questão é tão séria que no mês de junho de 2021 o Papa Francisco realizou a reforma do Código Canônico e tornou mais grave a punição por pedofilia.

O cantor saiu em defesa do pastor e a família da criança também. Indicam em suas falas a moral ilibada do homem e a relação de afeto quase que filial com a criança.

Então, será que os internautas exageraram?! Pode ser! Mas, ao juntarmos as informações aqui ofertadas sobre a violência sexual infantil, podemos perceber que há um imaginário social criado devido a milhares de crianças que são vítimas todos os dias desta violência. Talvez por isso, como um mecanismo de defesa coletivo, a sociedade torne-se mais punitiva.

Como psicóloga, acredito que o necessário é que a família olhe essa criança, pois não importa o que o Tribunal Virtual pensa, importa o que ela está sentindo. E é ela, sendo acolhida, sendo apoiada e não sendo revitimizada, quem vai apontar se aquele “abraço” não vai além de um abraço.

Dois pontos são importantes para a prevenção desse tipo de violência. O primeiro é a educação sexual, por meio da qual a criança deve aprender o que é intimidade e quais os limites que precisam ser dados a seus corpos. O segundo é a abertura familiar, ou seja, a família tem que ser um local de acolhimento e segurança; a criança tem que ser ouvida e sua fala não pode ser descartada como uma fantasia. Se algo a incomoda, isso tem que ser trabalhado!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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