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É professora universitária, advogada e psicóloga. Coordenadora de Pesquisa e Extensão das Faculdades Estácio Vitória

Klara Castanho e o direito de entregar um bebê para adoção

Além da violência física, simbólica e estrutural, há também uma violação institucional quando uma enfermeira expõe uma mulher em um espaço que deveria ser de acolhimento, cuidado e sigilo

Publicado em 27/06/2022 às 16h50
A atriz Klara Castanho
A atriz Klara Castanho. Crédito: Reprodução/Instagram

Desde sábado, 25 de junho, temos nos indignado com um jornalismo que não visa dar informações, mas sim tirar proveito da dor alheia e com profissionais da saúde que rasgam o seu código de ética e seu juramento em troca de vendas de informações.

A atriz Klara Castanho, que desde os 9 anos de idade aparece em nossas telas, denuncia um conjunto de violências pelas quais passou em carta aberta. De acordo com a atriz, ela teria sido estuprada e, mesmo tomando todas as precauções frente a tal violência, foi surpreendida com uma gravidez. Calada sobre o estupro e sobre o feto que carregava, a atriz busca por uma advogada para ser orientada em como poderia fazer uma adoção legal, haja vista não querer optar pelo aborto legal que lhe era garantido mediante a violência sofrida.

Klara passa por tudo, por juízes, assistentes sociais, psicólogos, exames gestacionais, enjoos e memórias dolorosas! Por tudo! Pelo entendimento de fazer o que achava ser o certo, todavia, não imaginava que depois de tudo isso sofreria mais ainda.

O Hospital Brasil localizado na cidade de São Paulo foi escolhido para que a criança nascesse, lá a atriz e o bebê deveriam ser acolhidos, cuidados e protegidos em sua saúde, mas também em sua intimidade, porém não foi isso que aconteceu.

Logo após realizar o parto, ainda sob efeito da anestesia, ela foi abordada por uma profissional de enfermagem que lhe disse: "Imagine se tal colunista descobre essa história”. Em carta aberta ao público, a atriz conta que quando chegou ao quarto do hospital o colunista já havia mandado mensagens tendo como conteúdo a sua presença dentro de um hospital e os motivos que a levaram até lá!

A história veio à tona sem a anuência da protagonista. Vejam! A atriz recolheu-se, sozinha gerou uma criança, guardou a sua dor para si e porque isso?! Ela mesma explica na carta que sentiu vergonha e medo. Mas medo de quê? Daquilo que ela sabia que aconteceria se expusesse a sua dor: ser julgada pelos juízes leigos de uma sociedade misógina.

E foi isso que aconteceu, os colunistas que exploraram a sua dor, que colocaram-na nas mídias sociais, não se importaram com o que aconteceria com ela. E olha que ela pediu para que eles não o fizessem. Eles publicaram a história e ganharam a fama que queriam! Contudo, os outros juízes da internet se rebelaram (afinal neste espaço julgamos tudo e todos, não se iluda que não será assim). Então, o jornal pede desculpas pela falta de empatia de uma reportagem já com milhões de acessos enquanto o outro colunista vem a público pedir perdão por tudo que fez.

Percebam que a atriz sofreu violências desde o momento do estupro, mas os sentimentos de medo e vergonha que a fazem não denunciar o fato são consequências de uma violência destinada à mulher de maneira invisível, onde mesmo que estejamos certas de alguma forma nos tornamos culpadas pela ação do homem violentador. Afinal, o que ela fez para que ele a estuprasse? Afinal, por que ela ficou sozinha com ele? Afinal, será que ela não deu condições para que isso acontecesse?

Além da violência física, simbólica e estrutural acima descrita, há também uma violação institucional quando a enfermeira a expõe em um espaço que deveria ser de acolhimento, cuidado e sigilo. Para além, temos a violência moral e psicológica realizada pelos colunistas e ratificada por celebridades que não só expõem a vida privada da atriz como a criticam por ter realizado o ato de entrega para adoção da criança. Observe, se a atriz não tivesse sido estuprada ela também teria o direito, através de todos os procedimentos legais, de entregar a criança para adoção.

É uma desconstrução de valores! Não só de valores profissionais da enfermeira e dos colunistas, mas de valores humanos. Até quando teremos o direito de machucar, destroçar ou acabar com a vida de uma pessoa para alcançarmos aquilo que desejamos? Não é só uma questão de empatia! É uma questão de caráter!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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